«O bizarro incidente do tempo roubado» de Rachel Joyce :: Opinião

Só quando o relógio pára é que o tempo realmente vive.”, William Faulkner
Esqueçam o bizarro incidente, esqueçam o tempo, só não esqueçam o roubo. O roubo que o tempo faz nas vidas que se tornam bizarras e insólitas devido a incidentes que nunca deveriam acontecer.
No decorrer do enredo serão também incapazes de esquecer Byron e Diana Hemmings ou até o brilhante James Lowe, os seus talentos e igualmente o desespero que tornam esta história envolvente e enternecedora. São os segredos do passado que determinam o rumo do futuro e que nos levam a questionar quem é Jim e o que faz nesta história… é refinada a forma como Rachel Joyce nos leva aos extremos de cada vida ali envolvida.
Dividido em três partes e umas dezenas de breves capítulos com títulos que deixam suspeitar rituais e pequenos desfechos determinantes, somos levados para dentro desta família, bem pouco coesa e talvez até muito típica para a época e somos igualmente transportados para o ambiente escolar de Byron e James, num misto de conspiração juvenil, com diagramas e projectos com que se propõe a resolver as consequências do bizarro incidente do tempo roubado.
 
Todos eles procuram pequenas coisas com que melhorar o seu dia a dia e a vida dos que os rodeiam. Byron é quase discípulo de James, mas é igualmente peculiar e com uma visão do mundo muito sui generis.
 
“Um fragmento de uma nuvem rápida estilhaça o prato de porcelana da lua.”
 
A escrita de Rachel Joyce contribuí bastante para um certo ambiente noir, com toques de insólito, num misto de crónica dos bons costumes e até tem leves rasgos de comédia, especialmente pelos comentários e perspectivas de Byron, mas também pela intelectualidade um tanto inocente de James. Há também ao longo dos acontecimentos um silêncio imposto e agreste causado pelo patriarca, o pai ausente, autoritário e critico e esse ambiente também é bem conseguido pelas descrições que tornam frias as horas passadas em família.
Era como espreitar a casa de outra pessoa pela janela e ver a vida de uma perspectiva diferente.”
A perspectiva muda radicalmente com a chegada de Berveley às vidas de Diana e Byron, retirando-os da “zona de conforto” imposta pelas regras do pai e da vida social a que se sentiam obrigados a viver. É em momentos de menos zelo e até medo que Byron percebe melhor a mãe que está escondida por debaixo da mãe que já de si era diferente de todas as outras.
Se durante a leitura tivéssemos um caderno de observações como Byron, anotaríamos que neste romance Rachel Joyce é exímia em contar uma história, alimentando sempre a curiosidade do leitor, caracterizando bem cada personagem, tornando-os próximos de nós, mesmo com décadas de separação… se também fizéssemos um diagrama como James talvez adivinhássemos a reviravolta mais cedo e assim digerí-a-mo-la melhor.
Num capítulo intitulado “surpresa” somos brindados com uma viagem às sonoridades dos anos setenta, com “Puppy Love”, dos bons momentos entre Diana e Berveley e depois uma playlist onde inclui o very best dos Bread 😉 Carpenters e Gilbert O’ Sullivan.
Vale a pena entrar neste relato bizarro, caricato e até um tanto melancólico.
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