“Até ao fim da terra” de David Grossman

Até ao fim da terra

 

Há livros assim, vertiginosos, como o vórtex de um tornado, com uma força narrativa gigantesca que nos agarra, levando-nos para uma outra realidade e fazendo-nos acreditar que estamos mesmo ali. Ali, ao lado daquelas personagens, tão humanas e palpáveis, cujo percurso acompanhamos, sem desistir, ao longo das suas mais de 800 páginas. Sei bem que um livro não toca todos os seus leitores da mesma forma mas esta foi, para mim, uma leitura marcante; deixou-me com aquela sensação de que algo mudou, de que nada será como antes, literariamente falando. Um livro que “fez estremecer a estante” como aquele que Avram , um dos protagonistas, em tempos sonhara escrever. Escusado será dizer que o estremecimento ocorreu na minha estante mental, mas ainda assim foi sentido como se fosse real, quase físico.

A forma como Grossman escreve, entrelançando as emoções nos corpos das personagens de uma forma simultaneamente clara, realista e bela encantou-me. Todo o romance transmite emoções profundas mas nunca de forma gratuita ou lamechas. Pelo contrário, aí reside a força desta história que nos empurra para a frente, na ânsia de saber mais, de perceber como se vive num país em constante estado de guerra, de ver enfim como será o desenlace daquelas vidas fictícias tão bem concebidas que custa a crer que a sua existência decorra apenas dentro das páginas de um livro.

Este é um romance sobre famílias e amizades verdadeiras mas também sobre a tremenda realidade de um quotidiano vivido paredes meias com a violência e a morte. Um quotidiano permanentemente condicionado por uma guerra que teima em não sair do seu impasse letal e onde não há vencedores mas apenas derrotados.

A força indómita e a tenacidade de Ora, a mãe que empreende uma grande caminhada através de Israel por acreditar que, se não estiver em casa enquanto o filho Ofer cumpre uma missão militar, este ficará a salvo, lembrou-me outro personagem inesquecível: Bjartur de Gente Independente de Laxness, outra das tais leituras que estremecem estantes. Ora anda ininterruptamente, sempre relembrando a vida do filho e contando-a a Avram, o seu pai biológico que não quis conhecê-lo, acreditando estar a protegê-lo assim da morte, como se a sua ausência de casa fosse uma espécie de talismã. Ao mesmo tempo, vamos conhecendo a relação profunda e triangular entre Ora, Avram e Ilan, iniciada ainda na adolescência, pretexto usado pelo autor para nos confrontar não só com as paixões e as contradições humanas mas também com a nossa capacidade para a compaixão e para a empatia para com o sofrimento do outro.

Recomendo pois que inspirem fundo e sigam o percurso de Ora através da prosa magnífica de David Grossman.Deixo aqui uns pequenos excertos, uma amostra diminuta dos muitos que assinalei no decurso da leitura, por ser muito difícil transmitir neste espaço toda a grandeza deste livro:

“E se isto aqui acabar dentro de dois dias e eu voltar para casa?, pergunta ainda mais contrariado, ou no caso de eu ser ferido , ou algo assim, onde é que eles te encontram? Ela não responde. Não encontram, pensa ela, é precisamente isso, e algo mais faísca nela: se não a encontrarem, se não for possível encontrá-la, ele não será ferido. Não consegue entender-se a si própria. Tenta. Não faz sentido nenhum, mas há aqui alguma coisa que faça sentido?”

“Caminha quase sem olhar. Parece-lhe estar a cair através da vastidão de um espaço infinito. É uma migalha humana. Ofer também é uma migalha humana. Ela nem sequer consegue atrasar um pouco a sua queda. E ainda que o tenha dado à luz, que seja sua mãe e que ele tenha saído de dentro dela, neste preciso momento não passam de migalhas humanas a pairar e a cair através do espaço infinito, imenso e vazio. No fim de contas, tudo se resume ao acaso, pensa Ora.”

“(…) diz Ora de dentro do chapéu, penso sempre: este é o meu país, e não tenho mais sítio nenhum para onde ir. Para onde iria? Diz-me, onde é que eu me irritaria e protestaria assim contra tudo? E quem me quereria, de qualquer modo? Mas ao mesmo tempo também sei que o país não tem qualquer hipótese, não tem, percebes? Arranca o chapéu de cima do rosto e senta-se, espantada ao ver que ele está sentado a olhar para ela. Se pensarmos nisso com lógica, se pensarmos apenas em números, factos, e história, sem quaisquer ilusões, não tem qualquer hipótese.”

Sinopse:

Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os “notificadores”. Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles. Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana – uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz?

 

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