Os demónios de Álvaro Cobra – Carlos Campaniço

cobraDepois de várias opiniões favoráveis e da leitura de “Molinos”, “Os demónios de Álvaro Cobra” surgiu naturalmente, “atropelando” “A Ilha das Duas Primaveras” que deveria ter-se seguido e continua adormecido no cimo dos livros a ler. Continuo a gostar de ler os livros dos autores que sigo pela sequência em que que são escritos… abri, aqui, uma excepção…

“Os Demónios de Álvaro Cobra” leva-nos, uma vez mais, ao universo de Carlos Campaniço, ao seu Alentejo real e imaginário. Mergulhados entre o real e o imaginário seguimos/perseguimos Álvaro Cobra e os seus demónios… muitas vezes os nossos demónios…

Falar agora deste livro, depois de praticamente toda a Roda ter expressado a sua opinião não é fácil. Habitualmente não sou de consensos, nem de unanimidades e sinto até algum incómodo perante a adesão maravilhada a um autor ou um livro. De forma mais ou menos inata sinto-me melhor a contrariar… Neste caso, porém, não consigo. Rendo-me à escrita e aos enredos de Carlos Campaniço e alinho a minha opinião pelo extasiamento geral da Roda.

Imperdível, este Álvaro Cobra que nos leva por caminhos intemporais e que, mesmo com o distanciamento que quis imprimir à leitura, não me deixa ser indiferente. Na ficção Álvaro parte como chega, mas fica na minha memória como uma história que um dia relerei.

Voltamos ao Alentejo que me apaixonou em “Molinos” mas agora mais imerso em realismo mágico, nos prodígios de Álvaro, que engana a morte duas vezes, nas febres eternas de Branca Mariana, nos 133 anos de sua bisavó Lourença, na mãe, Maria Braz, com as suas mãos desiguais, na presença de Clarinha e sua alma de nómada e no amor eterno de Vicente. Mas, o encantamento da vida destas personagens entrecruza-se na rudeza da vida da aldeia e na aridez do Alentejo. E voltamos ao diz que diz das gentes, às desigualdades gritantes, aos pormenores que nos são tão familiares.

Personagens de enorme riqueza descritas com mão de mestre. Todas, sem excepção. Uma homenagem ímpar onde não poderia faltar o padre, o médico, o subversivo, a dona do bordel e a prostituta e, claro, as almas do outro mundo e os animais que “falam”.

Um romance que merece saltar para o topo das leituras.

Excertos

“Antes de Clarinha aparecer, com seus olhos de gato-bravo assustado, a casa dos Cobra era um local de espíritos arrumados. A tolerância que Álvaro não conhecia na aldeia para com os seus prodígios era-lhe dada por uma família de gente rude no trato, mas de corações grandes, capazes de amparo suficiente parq que ele vivesse em paz com suas singularidades., quando o mundo todo o temia ou dele desconfiava..” (p. 53)

“Numa dada altura, Clarinha teve um espanto de clarividência quando entreviu o que tinha sido o mais óbvio desde a sua chegada – aquela era uma família insólita: o marido com suas singularidades inusitadas e suas coleiras de epítetos; a bisavó, quem sabe, a mulher mais velha do mundo; a cunhada, doente com febre toda uma vida; e a sogra com duas mãos desiguais. Chegou a parecer-lhe que aquela casa era um abrigo de gente saída dos contos populares nómadas. Não obstante, no resto da aldeia, as gentes eram iguais às demais encontradas nas vilas e aldeias e nos caminhos de terra batida daquele imenso Sul.” (p. 57)

“Na manhã seguinte, os campos esperavam o suor dos rurais. Era de sal e água que bebiam. O Sol nascera medonho, em brasa, queimando a luz incandescente que aturdia as gentes. Para os campos seguia, de manhã, gente sem pão e de forças extenuadas. Os filhos, sozinhos em casa, governavam-se com estímulos de sobrevivência, pois o pão estava por ganhar, por arrancar das entranhas da terra. Ao pé disto, o desamor de Vicente era um sofrimento que as gentes entendiam como exagero de órfão. Só um filho de lavrador que nunca passara mal poderia dar mais importância ao coração que à boca.” (p. 185)

Sinopse

«A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com três meses já tinha os dentes todos, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes – mas ressuscitou, e desde então um bando de grifosfaz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…

Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX – na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.»

Teorema, 2013

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4 pensamentos sobre “Os demónios de Álvaro Cobra – Carlos Campaniço

    • Obrigada, Márcia! Adorei, de facto! Ainda não publiquei a opinião, mas também já “Mal Nascer”. Continua a faltar-me a “Ilha das duas primaveras” mas fico já na expectativa do próximo livro que não vou perder!

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