O VENDEDOR DE PASSADOS – José Eduardo Agualusa

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Li este livro em duas horas numa manhã de praia. Reli-o depois a marcar as minhas partes favoritas (numa folha à parte que este livro foi emprestado – obrigada amiga! – nada de sublinhar frases e escrever notas nas margens), calmamente, a saborear a escrita e os pormenores.

As personagens são maravilhosas.

Eu já sabia que o narrador é uma osga mas, quando estava a ler, surpreendeu-me e quando reli continuei a achar as primeiras páginas ambíguas o suficiente para ver o Eulálio e não a osga.

Félix Ventura um albino em Angola, não sabe quem é, foi encontrado por Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, dentro de um caixote cheio de livros do Eça de Queirós – “Eça foi o meu primeiro berço”, vende passados falsos e tem como amigo uma osga com quem conversa.

Um vendedor de passados e uma osga chamada Eulálio? Supimpa.

Mas há mais. José Buchmann, repórter fotográfico, cliente que quer comprar um passado ou melhor toda uma vida, uma identidade africana:

“…O albino ouvia-o aterrado:

“Não!”, conseguiu dizer. “Isso eu não faço. Fabrico sonhos, não sou um falsário… Além disso, permita-me a franqueza, seria difícil inventar para o senhor toda uma genealogia africana.”

“Essa agora! E porquê?!…”

“Bem… O cavalheiro é branco!”

“E então?! Você é mais branco do que eu!…”

“Branco, eu?!”, o albino engasgou-se. Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa: “Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autóctone. Não está a ver que sou negro?…”

A sério que a osga se fartou de rir com esta.

Temos ainda Ângela Lúcia de quem Félix diz:

<<Ela é assim …>>, fez uma pausa, as mãos espalmadas, os olhos apertados num esforço de concentração, demorando-se a encontrar as palavras: <<Pura luz!>>

Há outras personagens paralelas a Velha Esperança, salva de ser fuzilada pela “logística” que se julga imune à morte e diz que são os muros que fazem os ladrões. O Ministro que compra toda uma genealogia e passa a ser neto de Salvador Correia de Sá e Benevides libertador de Luanda do domínio holandês.

Mas a história principal é a de Ângela Lúcia e José Buchmann que, vimos a descobrir, têm um passado em comum e o final da história dos dois, não o fim do livro, mas o final da história dos dois é surpreendente e brutal.

José Eduardo Agualusa, sou fã. Vou ler o “A Rainha Ginga”. Volto mais tarde.

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