“Os enamoramentos” de Javier Marías

Os_Enamoramentos

Este é um texto curto. É inevitável que o seja porque é, sem dúvida alguma, muitíssimo melhor ler as palavras da escrita magnífica de Javier Marías do que as minhas; os excertos transcritos abaixo não passam de uma parca amostra da sua capacidade para transformar palavras em arte . Colocando em cima da mesa a velha questão do que é mais importante num livro, o seu enredo ou o estilo adoptado pelo autor para contar a história, então, este “Os enamoramentos” vem, em minha opinião, defender de forma absolutamente brilhante, a segunda premissa, a da forma como tudo nos é narrado. A história é antiga como o mundo, pelo menos desde que existe literatura, talvez mesmo desde que existimos como espécie; um casal tremendamente apaixonado e feliz é desfeito pela morte de um dos seus membros e o melhor amigo do cônjuge morto está, desde há muito, apaixonado pela viúva. Até aqui, nada de novo. O que me arrebatou nesta leitura foi o modo genial como Javier Marías disseca a alma humana, o amor, o desejo, o luto, a violência, o sofrimento e o próprio sentido da realidade. Nada do que eu escreva poderá fazer justiça a este romance maravilhoso e tremendamente bem escrito, nada…

Aqui ficam alguns excertos para aguçar a curiosidade. Por mim, planeio continuar a explorar a obra deste autor fantástico.

Excertos:

“Convive-se sem problemas com mil mistérios por resolver que nos ocupam durante dez minutos de manhã e que depois se esquecem sem nos deixar inquietação nem rasto. É preciso não aprofundar nada nem demorar muito tempo em qualquer facto ou história que nos desvie a atenção de uma coisa para outra e que nos reitere as desgraças alheias, como se depois de cada uma pensássemos: “Olha que horror. E pronto. De que outros horrores nos teremos livrado? Precisamos todos os dias de nos sentir sobreviventes e imortais, por contraste, e assim, contem-nos atrocidades diferentes, porque as de ontem já as gastámos.”

“É outro dos inconvenientes de ser vitimado por uma desgraça: em quem a sofre os efeitos duram muito mais do que dura a paciência dos que se mostram dispostos a ouvi-lo e a acompanhá-lo, a incondicionalidade nunca é muito longa e tinge-se de monotonia. E assim, mais tarde ou mais cedo, a pessoa triste fica só quando ainda não terminou o seu luto ou já não se lhe consente que fale mais daquilo que ainda é o seu único mundo, porque esse mundo de angústia é insuportável e afugenta. Verifica que para os outros qualquer desdita tem uma data de caducidade social, que ninguém está disponível para a contemplação do desgosto, que esse espectáculo só é tolerável durante uma breve temporada, enquanto nele existe ainda comoção e dilaceração e uma certa possibilidade de protagonismo para os que olham e assistem, que se sentem imprescindíveis, salvadores, úteis.”

“Os filhos dão muita alegria e tudo isso que se costuma dizer, ma stambém dão muita aflição, permanentemente, e não creio que isso mude nem sequer quando crescem, e disso já se fala menos. Vemos a sua perplexidade diante das coisas e isso faz aflição. Vemos a sua boa vontade, quando lhes apetece ajudar e colaborar e não conseguem, e isso também faz aflição. São aflitivas a seriedade deles e as suas brincadeiras elementares e as suas mentiras transparentes, afligem-nos as suas desilusões e também as suas ilusões, as suas expectativas e as suas pequenas desilusões, a sua incompreensão, as suas perguntas tão lógicas, e até a sua ocasional má intenção. Aflige-nos pensar em quanto lhes falta aprender, e no longuíssimo percurso que enfrentam e que ninguém pode fazer em seu lugar, mesmo que levemos séculos a fazê-lo e não vejamos a necessidade de que tudo o nasce tenha de começar outra vez do princípio. Que sentido faz que cada um passe pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?”

“O mundo é na verdade tanto dos vivos e tão pouco dos mortos – se bem que permaneçam todos na terra e sejam muitos mais – que aqueles tendem a pensar que a morte de um ente querido é qualquer coisa que se passou com eles mais que com o defunto, com quem na verdade se passou. Foi ele que teve de se despedir, quase sempre contra sua vontade, foi ele que perdeu quanto estava para vir (ele que já não viu crescer e mudar os filhos, como por exemplo no caso de Deverne), ele é que teve de renunciar à sua vontade de saber ou à sua curiosidade, ele é que deixou projectos por cumprir e deixou de pronunciar palavras para as quais sempre julgou que haveria tempo mais tarde, ele é que já não pôde assistir; foi ele, se era autor, que não pôde completar um livro ou um filme ou um quadro ou uma composição, ou que não pôde acabar de ler o primeiro ou de ver o segundo ou de ouvir o quarto, se era apenas receptor.”

“(…) e o que se conta de nós contribui para nos definir, mesmo que seja superficial e inexacto, no fim de contas não podemos deixar de ser superficiais para quase toda a gente, um esboço, uns meros traços desatentos.”

“Quando uma pessoa deseja uma coisa durante muito tempo, é muito difícil deixar de o desejar, isto é, admitir ou dar-se conta de que já não a deseja ou de que prefere outra coisa. A espera alimenta e potencia esse desejo, a espera é acumulativa relativamente ao que espera, solidifica-o e torna-o pétreo, e então resistimos a reconhecer que malbaratámos anos enquanto aguardávamos um sinal que, quando finalmente aparece, já não nos tenta, ou os dá uma infinita preguiça de acorrer à sua chamada tardia de que agora desconfiamos, talvez porque não nos convém mover-nos. Acostumamo-nos a viver dependentes da oportunidade que não chega, no fundo tranquilos, a salvo e passivos, no fundo incrédulos de que alguma vez venha a surgir.
Mas, ai, ao mesmo tempo ninguém renuncia totalmente à oportunidade, e esse prurido desvela-nos, ou impede-nos de submergir no sono profundo.”

(…) se à nossa volta vive gente de talento nulo que consegue convencer os seus contemporâneos de que o possui imenso, e tolos e aldrabões que fingem com êxito ao longo de metade da vida ou mais serem de inteligência extrema e que são escutados como oráculos; se há pessoas nada dotadas para aquilo a que se dedicam e que no entanto aí fazem uma fulgurante carreira debaixo de universal aplauso, pelo menos até à sua saída do mundo que acarreta o seu imediato esquecimento(…)

“- O que se passou é o menos. Trata-se de um romance, e o que neles acontece tanto faz, e esquece-se logo que acabam. O que é interessante são as possibilidades e ideias que em nós inoculam e que nos trazem através dos seus casos imaginários, ficam em nós com maior nitidez que os acontecimentos reais e damos-lhes mais importância.”

“As verdades inverosímeis prestam-se a isso e a vida está cheia delas, muito mais que o pior romance, nenhum se atreveria a acolher no seu seio todos os acasos e coincidências possíveis, infinitos numa só existência sem falar na soma das que houve e das que ainda decorrem. É sufocante que a realidade não imponha limites.”

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