“O Inverno do nosso descontentamento” de John Steinbeck

steinbeck

Ao mesmo tempo que lançam um encantamento poderoso sobre o leitor, as palavras de um grande escritor inquietam, desassossegam e suscitam reflexões sobre este mundo que partilhamos, sem nunca perder de vista o prazer singular da leitura. Percorrendo os escaparates das livrarias percebe-se de imediato que, apesar da actual voragem efémera do mercado editorial, há obras e autores que perduram através das gerações. Perduram porque o merecem, porque traduzem de forma brilhante e superior as grandes questões humanas, aquelas que são em si mesmas também eternas, omnipresentes, qualquer que seja o tempo, qualquer que seja o lugar. Para mim, Steinbeck é um destes gigantes imortais tanto pela elegância, ironia e, por vezes, beleza da sua escrita quanto pelos temas abordados. Não me arrogo o direito de fazer crítica literária e estas linhas não passam de uma opinião de mera leitora, mas arrisco-me a dizer que neste romance encontrei alguns dos diálogos mais interessantes e acutilantes que alguma vez li. Aliás, quase todo o livro é assim, uma sucessão de conversas magnificamente construídas que nos apetece reler e reler…
Apesar de escrito no início da década de 60 do século passado, “O Inverno do nosso descontentamento” é ainda perfeitamente actual. Diria mesmo que é extraordinariamente actual; a ganância, a desonestidade, a leviandade e o vazio moral que expõe continuam, infelizmente, a ser prevalentes nas nossas sociedades onde, para alguns, os fins justificam todos os meios mesmo implicando o grave prejuízo de outras pessoas. O protagonista, Ethan Allen Hawley, é um homem de valores morais fortes cujo percurso se torna progressivamente mais dúbio e opaco sob a intensa pressão familiar. Apesar de relutante em abdicar dos seus princípios, Ethan acaba por não conseguir resistir a uma certa coacção social que dita que apenas aqueles que têm muito dinheiro e, como tal, um elevado estatuto, são dignos de apreço e respeito. É fantástica a forma como Steinbeck constrói o cerco em torno desta personagem notável e também como termina este livro, um daqueles que, volta e meia, se procuram na estante para ler de novo algumas passagens.

Mais não digo para não desvendar a história, mas se nunca leram “O Inverno do nosso descontentamento”, porque não lê-lo em breve ou mesmo agora?
Os excertos são, mais uma vez, algo longos. Destinam-se a quem seja suficientemente curioso e/ou paciente e são apenas uma pequeníssima parte das inúmeras passagens maravilhosas deste livro.

Excertos:

“Lembro-me de, em criança, rastejar entre livros de capas brilhantes, ou, amargurado por aquela vida meio fantástica que caracteriza a solidão, ter-me refugiado no sótão para me enrolar numa grande poltrona modelada à forma do meu corpo, numa luz azul de alfazema coada pelas janelas. (…) É um lugar acolhedor, maravilhoso, quando a chuva se abate sobre o telhado. E os livros inundados de luz, os livros de imagens que serviram a crianças há muito tempo mortas de velhice, colecções de romances baratos, pilhas de estampas mostrando as manifestações do poder divino: incêndios, inundações, maremotos e terramotos.”
(…)Quem confia os seus segredos ou uma história deve contar com a pessoa que o escuta ou lê, pois uma história tem tantas versões como leitores. Cada um toma dela o que quer ou o que pode, talhando-a assim à sua própria medida. Alguns aceitam uma parte e rejeitam o resto, outros passam-na à peneira dos seus conceitos, outros ainda transformam-na a seu bel-prazer. Uma história, para poder agradar, deve ter alguns pontos de contacto com o leitor. Só assim ele aceitará a parte maravilhosa.”

“Somos todos, ou quase todos, os pupilos daquela ciência do século XIX que nega a existência de tudo quanto não se pode medir ou explicar. O que não explicamos nem por isso deixa de existir, mas certamente não recebe a nossa bênção; não aprendemos o que não explicamos e assim o mundo , na sua maior parte, fica abandonado às crianças, aos anormais, aos imbecis e aos místicos, todos eles muito mais interessados pela existência das coisas do que pela razão de ser dessas mesmas coisas. Se tantas coisas velhas e adoráveis foram relegadas para o sótão do mundo é porque não queremos que elas continuem perto de nós, e , contudo, não ousamos deitá-las fora.”

“Nenhum homem sabe verdadeiramente como são os outros. O que mais pode fazer é supô-los semelhantes a si.”

“Existem devoradores e devorados. Aí está uma boa regra a ter em atenção. Os devoradores serão mais imorais que os devorados? Por fim, todos serão comidos – engolidos pela terra – , mesmo os mais impetuosos e os mais fortes.”

“O êxito comercial na nossa cidade não é complicado nem obscuro. Também não é sensacional. Os seus responsáveis souberam impor limites artificiais às suas actividades. Os seus crimes são pequenos e os seus êxitos medíocres. Se os métodos da administração municipal e comercial de New Baytown fossem estudados com cuidado, descobrir-se-ia a violação de cem regras legais e de mil regras morais. Mas não são mais do que infracções menores, roubos insignificantes. Ignoram uma parte do Decálogo e observam o resto. E, logo que um destes respeitáveis cidadãos obtém o que queria ou aquilo de que tinha necessidade, volta às suas virtudes com a mesma facilidade com que muda de camisa.”

“- Lembras-te das minhas condecorações?
– Das tuas medalhas da guerra?
– Foram-me atribuídas por actos de selvajaria. Nenhum homem sobre a Terra tem um coração tão longe do crime como eu. Mas fizeram uma outra caixa na qual me encerraram. Essa formou-me para o massacre, e eu obedeci.”

“Para a maior parte das pessoas, o sucesso nunca merece censura. Quando Hitler triunfava apareceu muita gente que nele encontrou virtudes. De Mussolini dizia-se que fazia partir os comboios à hora. Vichy, se colaborou, foi para bem da França. Quanto a Estaline, uma só coisa interessava: era poderoso. Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos actos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é o insucesso. Não há crime se o criminoso não é apanhado. Na operação que se preparava em New Baytown, alguns homens ficariam prejudicados, outros mesmo arruinados, mas essa ideia não faria deter os seus autores.”

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