” A magia dos números” de Yoko Ogawa

 

A_Magia_dos_N_merosEste romance de Yoko Ogawa revelou-se uma grande e deliciosa surpresa; nunca me tinha passado pela cabeça que a matemática poderia ser abordada com uma linguagem tão poética e que esta história, construída em redor de 3 personagens à semelhança de um haiku composto de 3 versos, seria afinal uma maravilhosa fábula sobre a capacidade humana de estabelecer pontes entre existências substancialmente diferentes mas partilhando um certo sentimento de limitação, isolamento e perda. Não querendo desvendar demasiado o enredo deste “A Magia dos Números”, direi apenas que esta narrativa de um antigo professor de matemática, atingido por um grave problema de memória, cuja solidão é quebrada pela enorme compaixão e atenção dedicada da sua nova empregada doméstica e pelo contacto com o filho de 10 anos desta me encantou.

Delicado, subtil e enternecedor, foi uma leitura tremendamente apreciada e serenamente degustada. Os seus personagens não têm nomes, como se a identidade não fosse importante, pois o essencial radica na relação invulgar que estabelecem entre si. Esta leva-os a ultrapassarem as suas limitações de modo a serem capazes de alcançar a essência do outro, de comunicar verdadeiramente. O professor de matemática, apaixonado pela sua disciplina, redescobre a alegria de ensinar através de uma criança curiosa e a empregada doméstica, impedida pelas circunstâncias da vida de atingir um nível de estudos superiores, percebe que não há barreiras para a compreensão, desde que tudo seja apresentado da forma mais adequada a cada um. Aqui a matemática não aparece como uma matéria enfadonha e intragável mas sim como uma linguagem quase mágica, capaz de apreender e revelar a verdadeira natureza da realidade e os segredos do universo, para além de marcadamente lúdica. Neste entrelaçar da matemática, da compaixão e da bondade, os três personagens vão tecendo uma amizade forte que lhes dá o impulso necessário para saírem das suas conchas e irem mais além. Neste livro a razão e a emoção estão exactamente onde devem estar; de mãos dadas, enraizadas uma na outra pois assim é a natureza humana: um equilíbrio delicado entre ambas.

Excertos:
“Raiz de 100 igual a 10, raiz de 16 igual a 4, raiz de 1 igual a 1, por isso raiz de -1 igual a…
O professor nunca nos pressionava. Acima de tudo gostava de observar os nossos rostos enquanto reflectíamos.
– Talvez esse número não exista? – comecei eu prudentemente .
– Sim, está aqui – disse ele apontando para o peito. – É muito discreto, não se dá a ver mas está no interior do coração e suporta o mundo com as suas mãozinhas.”

“Pelas minhas suposições, parecia-me que o charme dos números primos talvez residisse no facto de não se poder explicar a ordem por que surgem. Preenchendo a condição de não ter por divisores nenhum número a não ser eles próprios e 1, dispersavam-se no meio dos outros a seu bel-prazer. Mesmo que fossem cada vez mais difíceis de encontrar à medida que cresciam, era impossível ter o conhecimento prévio do seu aparecimento através de uma regra definida, e essa fantasia voluptuosa prendia o professor, que buscava a beleza perfeita.”

“A utilização generosa que fazia da expressão “não saber” era uma outra maravilha do ensino do professor. Não saber não era vergonhoso, pois permitia tomar outra direcção na busca da verdade. E, para ele, ensinar a realidade de existirem ali possibilidades intactas era quase tão importante como ensinar teoremas já demonstrados.”

“- É precisamente por não servir para nada na vida real que a ordem da matemática é bela. Mesmo que a natureza dos números primos se revele, a vida não se irá tornar mais fácil, nem se vai ganhar mais dinheiro. É claro que, mesmo estando de costas viradas para o mundo, encontramos todos os exemplos que quisermos de descobertas matemáticas que acabaram por ser postas em prática na realidade.(…)Contudo, não é esse o objectivo da matemática. O objectivo da matemática é tão-só fazer emergir a verdade.(…)
-A verdade eterna, que não é influenciada nem pela matéria, nem pelos fenómenos naturais ou pelos sentimentos, é invisível. A matemática pode elucidá-la ou exprimi-la. Nada pode impedir isso.”

“Na minha imaginação, o criador do Universo estava a fazer renda num canto qualquer lá para os confins do céu. Com um fio tão fino que deixava passar a luz. O desenho só existia na cabeça do seu criador, ninguém podia apoderar-se dele, nem prever o padrão que viria a seguir. A agulha estava em constante movimento. A renda estendia-se até ao infinito, formava ondas, ondulava ao vento. Apetecia pegar nela para a expor à luz. Em êxtase, à beira das lágrimas, o nosso rosto era aflorado por ela. E ansiava-se por poder representar por palavras os motivos representados. Bastaria um fragmento minúsculo, que pudéssemos levar de volta para a Terra.”

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