“Vida e Destino” de Vassili Grossman

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“Criámos livros que são flores: louvados pela sua beleza. Mas criámos outro,
único, que é como a semente: faz crescer flores dentro da alma.”

Afonso Cruz in “Para onde vão os guarda-chuvas”

“Caminho para a liberdade com o corpo amarrado pelos meus próprios pensamentos”

Márcia Balsas in “Tempo vazio” (“Desassossego da Liberdade”)

 

Há muito tempo que “Vida e Destino” estava na minha lista de “A ler”. Iniciei a leitura com emoções contraditórias: entusiasmo ante a expectativa de mais um livro fascinante e algum medo de que esta, afinal, não viesse a tornar-se realidade. Mas tornou-se e como!  Este livro, levado secretamente para a Europa Ocidental após ter sido apreendido e censurado na antiga URSS, veio ocupar um lugar de honra na “prateleira mental” das leituras marcantes e inesquecíveis. Tudo me cativou e a extensão da sua narrativa nunca foi sentida como excessiva ou entediante. Desde descrições belíssimas da floresta e da estepe russas  e da narração tocante e aterradora do horror da batalha de Estalinegrado e dos campos de concentração, tanto nazis como soviéticos, até às suas personagens, quase todas ricas em matizes, contraditórias e imersas em dilemas ou no sofrimento decorrente da guerra, tudo nesta obra me emocionou.   Senti que este foi um livro escrito com alma, que constitui um testemunho real das questões que atormentavam Vassili Grossman, o qual morreu mais de 10 anos antes da sua publicação. Dois dos regimes mais horrendos do século XX constituem o fulcro de “Vida e Destino”: o nazismo e o comunismo soviético sob Estaline. São como dois irmãos, gémeos idênticos, na convicção absurda da justeza absoluta das respectivas “verdades” perante as quais a tortura e o extermínio de milhões de pessoas é “normal” e perfeitamente justificável. Ambos, pelas culturas de medo que impuseram, conduziram à escravidão última, aquela que transforma seres humanos em autómatos telecomandados, incapazes de agir de acordo com a sua consciência, esvaziados de qualquer possibilidade de escolha e obrigados a obedecer cegamente a um regime assente na violência mais abjecta.

Assinalei imensas passagens deste romance notável que termina deixando as suas personagens imersas em cenas das respectivas realidades quotidianas, sem lhes conceder um desfecho definitivo, como que para mostrar, que apesar de tudo, do medo, da violência, da pobreza, da dor, sobrevive-se e a vida continua, imparável, sempre. Não as posso transcrever todas, deixo aqui apenas algumas daquelas que mais me tocaram.

 

Excertos:

“Lá, no bunker, sentia que era o senhor, o mecânico.
Mas aqui foi dominado por um sentimento completamente diferente… O clarão por cima de Stalinegrado, os vagarosos ribombos vindos do céu – tudo isso impressionava pela força e paixão gigantescas, independentes do comandante.
No meio do estrondo do tiroteio e das explosões, do lado das fábricas, chegava-lhe um som quase inaudível, arrastado:a-a-a-a-a…
Neste grito arrastado da infantaria de Stalinegrado em contra-ataque havia qualquer coisa não só ameaçadora, mas também triste, amargurada.
-A-a-a-a – propagava-se por cima do Volga…o “hurra” do combate, ao voar por cima da fria água nocturna sob as estrelas do céu outonal, parecia perder o ardor da paixão, transformava-se, e impregnava-o de uma essência muito diferente –não era fogosidade nem bravura, mas a tristeza da alma como que a despedir-se de tudo o que lhe era querido, como que a pedir que todos os seus familiares acordassem, que levantassem a cabeça da almofada, que ouvissem pela derradeira vez a voz do pai, do marido, do filho, do irmão…
A angústia do soldado apertou o coração do general.”

“Toda a gente tem culpa para com uma mãe que perdeu o filho na guerra, e é em vão, que durante toda a história da humanidade, tentam justificar-se perante ela.”

“A história humana não tem sido uma batalha do bem a tentar vencer o mal. A história humana é a batalha do grande mal a tentar triturar a semente do humanismo. Mas, se o humano não foi morto no homem, mesmo hoje, o mal será incapaz de vencer. (…) Perante ela (a bondade), o mal é impotente. Ela, o amor cego e mudo é o sentido do homem.”

“O reflexo do Universo na consciência humana constitui a base da força e do poder do homem, mas a vida torna-se felicidade, liberdade, sentido superior apenas quando o homem existe como mundo impossível de alguma vez ser repetido por alguém, no infinito do tempo. Apenas neste caso o homem experimenta a felicidade da liberdade e da bondade, encontrando em outras pessoas o que encontrou em si próprio.”

“ Sentiu fisicamente a correlação entre o peso do frágil corpo humano e do Estado gigantesco, pareceu-lhe que o Estado estava a perscrutar a sua cara com enormes olhos claros, que a qualquer momento ia cair em cima dele, e então daria um estalido, soltaria um pio, um guincho e deixaria de existir.”

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2 pensamentos sobre ““Vida e Destino” de Vassili Grossman

  1. Regresso em grande ao blogue Renata. É continuar. Sempre. Obrigada pela referência à minha pessoa. Ainda me sinto mais pequenina ao pé dos gigantes, mas é bom.

    • Aquela frase é, para mim, fabulosa. Tem-me perseguido desde que a li. Faz todo sentido num artigo sobre um livro onde a questão da liberdade é fulcral.

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