O Dia em Que o Sol Se Apagou – Nuno Gomes Garcia

O Dia em Que o Sol se Apagou“O Dia em Que o Sol Se Apagou” recordou-me que os livros se devem apreciar devagar. Que a leitura lenta é um prazer. Que a releitura de algumas passagens é uma nova descoberta.

De tudo isto me tinha esquecido há anos, deixando-me pressionar pelo interesse nos livros por ler, deixando-me levar pelo desejo de saber o final, querendo simplesmente ler rápida e sofregamente, para ler sempre mais e mais livros. Possivelmente é chegada a hora de deixar de coleccionar leituras. É talvez a hora de aprender realmente a ler. Como quando se aprende a apreciar vinho, e se percebe, com o tempo, o que se ganha em esperar.

Como um bom vinho, este Sol que Se Apaga, tem o seu tempo de degustação. Degustei o primeiro capítulo várias vezes. E a habilidade da escrita permitiu-me lê-lo de várias formas diferentes, conforme avançava na leitura. Desde a primeira vez, achando que não fazia sentido, a segunda tendo claramente encontrado um erro cronológico grave, e tantas vezes lá voltei para confirmar, certificar, apurar, e concluir que tudo bate certo, não há erros, há sim um romance desafiador, construído de forma brilhante, e que, para minha sorte, tem algumas das coisas que eu mais gosto num livro: História, viagens, muito mistério e alguma fantasia. Esta última, na verdade, não sabia que gostava. Possivelmente, neste caso, gostei por ser dada em doses controladas e cuidadas, quase parecendo realidade. O poder de um livro pode medir-se pela forma como o impossível, ou pouco provável, é um dado adquirido de realidade para quem lê. Como um menino a quem roubaram os olhos existir, depois de ter cegado gente com o brilho do olhar.

Este é um romance que se apoia em factos históricos de forma rigorosa, revelando um cuidado na linguagem, adequada à época. Viajei com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva descobrindo locais exóticos onde o prazer nunca é excessivo, mas ao mesmo tempo fiquei num Portugal tacanho e sombrio, país de alma doente e fechada. Uma narrativa que, ao mesmo tempo que segue a linha esperada, se desvia do que é espectável, em saltos de espaço e tempo, obrigando a uma atenção, a uma participação activa para seguir os acontecimentos. Parece algo complexo e difícil. Mas não. É fácil. Torna-se um projecto, uma vontade, um tem de ser porque se lê com tanto gosto. Um prazer desafiante, muito mais profundo do que parece à partida, e com uma actualidade surpreendente.

Um livro que, estou certa, ninguém lerá da mesma forma. Por permitir criar tantos cenários de possibilidade, por oferecer várias interpretações, por não se esgotar.

Excelente. Recomendo sem reservas.

“- O mundo apequena-se a cada expiração que damos ou a cada passo que percorremos – expliquei-lhe. – E novas terras são descobertas todos os dias.” (Pág. 225).

Sinopse

“No dia 26 de março de 1487 o sol apaga-se subitamente no reino de Portugal. Sem explicação para tão súbitas trevas – que uns atribuem à maldade castelhana e outros à heresia dos judeus -, D. João II envia dois espiões em demanda da solução que restitua a luz ao País e evite o seu definhamento. Com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva irá também, guardado num estojo, um par de olhos de diamante que outrora pertenceram a um menino chamado Mil-Sóis, cujo olhar cegava quem o encarasse, e que são a peça fundamental desta missão.
Enquanto Pêro da Covilhã narra o seu périplo de Lisboa à Etiópia, das Índias ao reino do Monomotapa, de Meca a Sofala, quase sempre disfarçado de mouro e constantemente perdido em bordéis, Salvador – um embalsamador albino com um estranho passado – ficará de guarda à mulher do espião, por quem nutre há muito um amor secreto, e não cessará de procurar os olhos que possam devolver a luz ao seu irmão Mil-Sóis.
É uma obra fascinante que inventa um cataclismo improvável para reescrever o período áureo da História de Portugal. Um romance de luz e sombra, de avanços e recuos, que cruza fantasia com rigor histórico. E que, no final, responderá a duas questões essenciais: irá o Sol regressar a Portugal? É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?”

Casa das Letras, 2015

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