A Cifra, de Mai Jia

cifra

Há poucos livros com uma capa mais fantástica do que esta. Infelizmente é enganadora. Há poucas sinopses tão interessantes quanto esta. Infelizmente é enganadora. Tirando isso gostei bastante do livro.

Comprei-o pela capa. E pela sinopse.

Gostei pela escrita.  Pelas palavras, pelos personagens. Apesar destes serem pouco explorados. Na realidade e por conhecermos o personagem central (o único que realmente interessa) apenas pelas palavras de terceiros quando ele é, nitidamente, alguém que não é passível de ser atingido por quem quer que seja, rapidamente percebemos que afinal temos que tentar decifrar o próprio livro.

Rong Jinzhen é um miúdo estranho (é inclusive levantada a hipótese de sofrer de uma ligeira forma de autismo) que é educado num amaldiçoado jardim de pereiras por um estrangeiro. É aqui, com as flores das pereiras, que aprende a contar. Quando acaba por ocupar o lugar a que tem direito por nascimento é reconhecido pelo seu tutor como um génio da matemática e o lugar passa a ser seu por mérito e talento (e onde está a justiça disso?). Confesso que esta parte do livro me fascinou. O autor consegue fazer-nos acreditar no génio e talento de Jinzhen. A relação deste miúdo autodidata  com um professor universitário, também ele um génio da matemática com aspirações ao estudo da inteligência artificial (estamos nesta altura no final da segunda guerra mundial), é super interessante. A ida de Jinzhen para uma unidade secreta onde se torna um herói como criptoanalista marca a segunda parte deste livro. E é aqui, quando pensava que a ação ia começar, que comecei a ficar um bocadinho desiludida (e a culpa é de ter lido a sinopse). Nem a matemática toma um lugar de destaque, nem as cifras o fazem. Mas não deixa de ser interessante acompanhar o destino de Jinzhen, a sua luta contra a Negra, o valor da amizade e da traição e a proximidade entre a loucura e o génio.

E é inevitável referir que, apesar de não considerar este um romance tipicamente Chinês (até porque, para ser sincera, não faço a menor ideia do que é isso), é possível aprender um pouco sobre a China do pós-segunda guerra mundial, da cultura que ainda hoje marca este país. Essas marcas estão lá, inevitavelmente.

E apesar de ter ficado um bocadinho desiludida com a história (e continuo a culpar a sinopse, feita apenas para vender) gostei imenso da escrita deste autor. Sem cair no facilitismo e na rapidez dos policiais e thrillers conseguiu manter-me interessada do princípio ao fim. Parece que este é o primeiro livro de uma trilogia. Vou ficar à espera da continuação.

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