Este é o meu corpo – Filipa Melo

esteeomeucorpo“Hoje sei que quando os corto, os peso, os viro do avesso, são eles que me usam, e não ao contrário. São eles que me chamam para falarem através de mim. É para isso que os mortos usam os corpos. Oferecem-mos, exibem-nos como prova. Deixam-nos ficar para trás para colocarem um ponto final na sua história. Para partirem vingados, limpos e em paz. (…) Uma autópsia é como um nascimento. Nunca se repete. Tal como nunca se descasca pela segunda vez uma laranja.” Páginas 20 e 21.

Mais um livro que li como se fosse uma corrida. Não por ter vontade de chegar ao fim, mas por não conseguir parar. Soube que tinha de o ler quando a Cris falou dele a primeira vez. Que tinha de o ter, pronto. Que o leria avidamente da primeira vez, que marcaria as melhores passagens para reler diversas vezes, e que, provavelmente, haveria uma segunda leitura. Tudo verdade excepto a segunda leitura. Ainda.

Um livro sobre o corpo. O corpo inteiro. Mesmo quando é analisado em pedaços na mesa de autópsia. Não é mórbido, eu não acho, gosto de ler sobre a morte. E tenho, desde há muito tempo, um enorme (e muito pouco mórbido) interesse sobre Medicina Legal.

Há um crime mas não é um policial. Não é um jogo que nos entretém à procura do assassino. Não há pistas ocultas nem jogos com o leitor. Há um cadáver que revela a verdade mediante a perícia de quem o estuda. Órgão a órgão. Detalhe a detalhe. Bastante detalhe mas não suficiente pormenor. Quem deseja saber quer sempre mais. Contudo, é bastante elucidativo desde a primeira incisão para levantar a pele do crânio, até ao corpo novamente fechado findo o trabalho.

As pistas da morte intervaladas em capítulos de vida. Vidas comuns, histórias fora da sala de autópsia que através da relação vida/morte vão montando o mosaico deste romance, mostrando o caminho para as respostas às perguntas “quem matou” e “como matou”. O Médico Legista, romântico solitário, cujo trabalho é uma declaração de amor ao corpo e à morte como informação preciosa sobre a vida, e que, enquanto fala com os mortos oferece tantos pedaços de si, pedaços vivos, que compõem uma personagem muito especial.

“Eu gosto dos mortos. Dos meus mortos. Daqueles com quem converso enquanto os descasco e lhes peço que me contem as suas circunstâncias. Vou perguntando porquê, quem, onde, como, quando. E eles respondem, nunca se fazem rogados. Renascem à minha frente em peças separadas que eu peso com cuidado. Deixam-se abrir sem um lamento. A vida vai-lhes saindo aos pedaços do corpo e, quando se consuma, leva consigo a voragem da morte. Fica só uma paz que os envolve com suavidade. Uma paz-mortalha.” Página 23.

Um livro brilhante. Uma escrita envolvente, inteligente, elegante e madura. Raro e difícil de encontrar como todas as obras de arte. Mas quando um livro tem tanto para oferecer a quem ama a leitura e a escrita, esquecê-lo e remetê-lo a edições únicas é criminoso e tem pouco de artístico. Procurem-no.

Sinopse

“Um corpo desfigurado de mulher aparece na margem de um rio. Pelas mãos de um médico legista, que pouco a pouco se apropria do cadáver, dialogando com ele, mergulhamos na história das personagens que contribuíram para esta tragédia. A autópsia deste corpo, que é também a autópsia de um crime, revela-nos os meandros da nossa fragilidade física e os reflexos da morte sobre os que continuam vivos.”

Sudoeste Editora, 2007

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