Fim – Fernanda Torres

fimNo último piquenique da Roda dos Livros não resisti a este livro. É da Cris e rodou para mim. Tive o palpite que me iria agradar muito e não me enganei. Penso que Fernanda Torres, com o seu humor inteligente e, por vezes, negro, não agradará a todos os leitores, afinal nem toda a gente achará graça a um livro que brinca com o fim, com a morte.

Todos os personagens principais já morreram. Cinco homens, Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro, dos quais fiquei a saber tudo, sem filtros nem pudores, directamente dos seus pensamentos, tudo o que acham das suas mulheres, amantes, dos filhos, de si próprios e dos amigos. Uma viagem no tempo à juventude destes homens peculiares, com as suas manias e taras (muitas taras, preparem-se), os seus olhares de velhos para um passado de libertinagem sem receios nem culpas. Cada um tem o seu espaço no livro, e as suas histórias enredam-se de tal modo que a cada página vamos ficando a conhecer um pouco de todos. Adorei a construção do livro, muito inteligente, conseguiu agarrar-me contando versões das mesmas situações de modo que, aos poucos, se descubra o que realmente aconteceu. Ou talvez não se descubra nada, pois que tudo não passa de uma visão, da forma com que cada um olha e encara o passado, agora, na velhice, no fim. Achei também interessante o foco dado ao olhar sobre a morte dos companheiros de vida, por parte dos sobreviventes “temporários”, e a forma como, os que irão morrer depois, encaram o tempo que resta.

A estrutura do livro não é inovadora, na verdade não trás nada de novo. Não sendo algo novo, mas estando tão bem construído, revela-se num livro pequeno, com um imenso conteúdo, incrível que tudo caiba em menos de duzentas páginas. A estrutura é, para mim, o ponto mais forte e marcante de “Fim”. Depois há o humor, profundamente negro, de dizer (escrever) sem pejo tudo o que vai na cabeça destes homens, tratando de temas banais sem nunca cair na banalidade e ter, realmente, muita piada, pelo menos para mim que procuro, acho eu, um tipo de humor que a maioria não valoriza.

Escrever bons textos cómicos é uma tarefa árdua e admiro muito a forma como Fernanda Torres o conseguiu fazer de forma exemplar. Apresenta-se em Português do Brasil, e aqueles que acham que as novelas da Globo dão (ou deram no meu caso) as ferramentas para entender tudo, preparem-se para googlar.

“Não há nada mais egoísta do que criança. Não suporto meus netos. Moram longe melhor para eles. São barulhentos, interesseiros. Amei minha filha até ela completar cinco anos, depois não aguentei a histeria dela, da minha mulher com ela, dela com as empregadas. Eu fazia qualquer coisa para não ter que voltar para casa.” (Pág. 17);

“O filho de Sílvio Motta Cardoso Filho, Inácio, comunica o falecimento de seu malquisto pai, infiel marido, abominável avô e desleal amigo. “Peço perdão a todos os que, como eu, sofreram ultrajes e ofensas, e os convido para o tão aguardado sepultamento que terá lugar no dia 23 de Fevereiro de 2009, no Cemitério São Francisco Xavier, à rua Monsenhor Manuel Gomes, 155, nesta cidade do Rio de Janeiro, às 4 horas da tarde.” (Pág. 77);

“Segurei a caixinha. Viagra, dizia o rótulo. Aconselho tomar com umas três horas de antecedência, para não ter surpresas e já chegar calibrado. Você experimentou?, perguntei. Logo que chegou, ele disse, e não larguei mais. (…) Furei a Solange que nem britadeira. Achei pouco. (…) Eu trepava como um ginasta, gastei o que não tinha com as gurias de vinte do bas-fonds da Prado Júnior e me apeguei ao roupão descartável da Centauro, onde quase fui à bancarrota por causa de duas profissionais que se trancaram comigo num dos quartinhos. Começaram desanimadas, meio enrolando o freguês, mas, perto de acender a luz vermelha, as canalhas saíram se esfregando que nem polvas. Me deu um tesão filho da puta, mandei dobrar o prazo. Tripliquei, quadrupliquei. Na hora de pagar, me explicaram que, com duas, tudo era dobrado. Saí rapado e tive que pedir dinheiro para a celeste. Disse que era para um tratamento de canal.” (Pág. 97)

Sinopse

“Cinco amigos cariocas, velhos, vêem o fim aproximar-se a passos largos. Quase a cortar a meta da vida, recordam paixões e traições antigas, cobardias e vergonhas, manias e inibições. No Rio de Janeiro dos anos 60, onde se conheceram, uniu-os a folia, as festas de álcool, mulheres e droga. Pelo meio, aconteceu a vida: casamentos, separações, filhos, contas por pagar, sonhos por cumprir. Além de um passado de excessos e de um presente de frustrações, pouco têm em comum. Álvaro vive sozinho, passa o tempo de médico em médico e não suporta a ex-mulher. Sílvio é um drogado que não larga os vícios nem na velhice. Ribeiro é um rabo-de-saia atlético que ganhou nova vida ao descobrir o Viagra. Neto é o chato da turma, marido fiel até ao último dia. E Ciro, o Don Juan invejado por todos — mas o primeiro a cair. À volta destes cavaleiros cariocas, movem-se as mulheres — esposas, amantes, filhas e mães — amargas, neuróticas, ternurentas, sedutoras, enganadas e resignadas. 
Juntos compõem um mosaico do Rio de antes e de agora. Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de Fim., mas também há melancolia. Fernanda Torres, premiada actriz, estreia-se nas letras com um romance fora de série: sagaz, viril, profundo, cru, pleno de humor e vitalidade. Um livro que vai e vem como a vida e a morte: sem desculpas.”

Companhia das Letras, 2015

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