«Ana de Amsterdam» de Ana Cássia Rebelo :: Opinião

“Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se um vício. Percebo bem o que queria dizer.”

Lermos «Ana de Amsterdam» é irmos ao encontro do tempo preenchido de solidão, vago de outros afazeres que dessem prazer ou dessem sentido aos dias ou noites de insónia de Ana Cássia Rebelo.
O livro com nome de música, quase como homenageando o cantor e letrista (e não só!) Chico Buarque é um relato pessoal, frio, despudorado, confessional e até cáustico e em certos aspectos mau, é um livro que fere, que magoa, ao ler certas e determinadas frases, mesmo que muito verdadeiras e aplicadas a muitos de nós. Cássia Rebelo mantêm assim um diário, desde 2006, onde tentou pela escrita ser capaz de afastar certos fantasmas.

“Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente.”

Os relatos vão avançando, as estações do ano mudando e as insónias continuam, a depressão também, as consultas, os dias, uns atrás dos outros e os anos sucedem-se e não lemos só mágoa, desespero ou confissões, somos também transportados até Goa, mais precisamente Maina, por entre tamarineiros e saris, outras cores e outros climas mais amenos e até pegajosos, locais onde a autora se diz sentir em casa. Relatos que cruzam a angústia com a família, com a ternura de estar perto dos seus, de quem reconhece trejeitos, vícios e maleitas que lhe são também muito suas.

“Há moscas varejeiras que vivem dentro de mim, alimentando-se da porcaria que por cá há. Voam até cima e falam-me ao ouvido. Dizem-me sempre o mesmo.”

Este diário é cru, sem subterfúgios, ela é mulher, é mãe, é amiga, é filha… é um pouco de tudo e muito de nada. Está cansada. Os seus escritos revelam o olhar desapaixonado, a resiliência de quem está quase a perdê-la, que nos relata os filhos como fonte de tensão, mas também como último reduto de amor.

Achei muito interessante este (quase) acto de expiação, pois aumenta sempre a minha curiosidade quando em pequenas frases ou em detalhes pessoais me sinto próxima de alguém que não conheço e cujo as histórias ou particularidades me lembram de mim mesma.

“Estranho a facilidade com que as outras mulheres se tornam íntimas. Pouco depois de se conhecerem, trocam beijinhos, tratam-se por tu, contam segredos de fêmea, partilham ralações domésticas enquanto comem minipratos de lulas recheadas sobre mesas de fórmica. Não tenho vocação para a comiseração do género e não aprecio a devassa, assim, em pedaços de névoa cheirando a gordura, da vida familiar.”

Se quiser resumir as palavras de Cássia Rebelo a uma palavra, escolheria frontalidade. Sem ofender ou chocar ninguém expõe tanto o lado familiar, a fragilidade, a morte, a frigidez ou a sexualidade… a vida com o que tem de real e de ficcionado, nas realidades que inventamos e reinventamos para mantermos viva a vida.

“Morri no princípio de Outubro (…)Não traziam flores. Vinham com os olhos líquidos de abandono. Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo (…)”

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