«Leituras ao Luar» Brenda Walker :: Opinião

“Como os livros salvaram uma vida” é o mote para este livro de não ficção de Brenda Walker. Não sei como lhe chamar, mas diria que se trata de um diário de leituras e memórias de leituras que se cruzam com as actuais, naquelas que Brenda fez enquanto lutou contra a doença.
“Poderá a medida da cura convir ao tamanho da ferida?” James Wood, citado logo ao abrir do livro antes ainda de nos depararmos com capítulos com nomes comocirurgia, quimioterapia ou radioterapia, entre outras fases destes tempos difíceis. Edgar Alan Poe é desde logo referenciado, mas o primeiro livro em que Brenda pensa é “As Horas” e de onde destaca:
“Tenho de dar o livro da sua vida, um livro que será a sua bússola, o seu pai e a sua mãe, que o armará para enfrentar a mudança.” Claro que a promessa é aliciante, para quem gosta de livros, de lê-los, de tê-los, de os vivenciar, parte sempre em busca de um livro que seja mais que os outros, que seja um porto de abrigo, uma bóia de salvação. E julgo que é neste sentido que este livro decorre, a autora parte em busca dos livros da sua vida numa fase em que o fim da vida pode ser uma realidade bem próxima.
“Quando se pensa na morte a vida tem menos charme, mas tem mais calma” Tolstoi
No entanto, não pense o leitor que «Leituras ao Luar» é um livro sombrio, eu não o achei, antes pelo contrário, facilmente esquecemos a doença e pensamos no encantamento pelos livros, especialmente se descobrimos tantas coisas novas, tantos livros por ler, tanto autor por descobrir. Como é o caso do livro: Norah’s Ark, um livro infantil, cujo o mote é “uma mulher salva os seus animais de uma cheia virando o seu celeiro ao contrário e construindo um abrigo sobre o seu telhado impermeável.”
À medida que o livro avança, as frases de ordem são vitoriosas, são hinos à vida.
“Vive e inventa” como escreve Malone em «Malone está a morrer” de Beckett ou “Creio profundamente no poder do trabalho inacabado para nos manter vivos” frase brilhante de Bellow em Ravelstein.
As fases de tratamento vão avançando e Brenda apoia-se em quem tem por perto, mas muito nos livros e nos relatos que “colecciona” para mais tarde nos brindar com este livro que se lê como um romance. Um romance com os livros, os seus autores e claro algumas manias de leitor.
“(…) porque as noites são longas e o livro não pode acabar cedo de mais.” refere Brenda perante uma noite de internamento na presença de “A linha da beleza”, de Alan Hollinghurst e o seu conceito de «ausência pessoal» como forma de descrever a morte e que a faz pensar na forma como se alterou o contacto com a morte. A frieza de morrer, só e num espaço impessoal como um hospital. Nas várias questões que a Literatura lhe propõe, Brenda conta também episódios e preocupações e afirma que de modo algum a leitura é um passatempo (assim tão) solitário. Há toda uma imensidão de efeitos que a leitura causa, até chegar ao ponto que ela destaca da obra de Tartt em “A história secreta” e a “(…) relação inquieta connosco próprios (…) uma suspensão temporária de nós mesmos.”
Li com muito agrado e até um certo carinho todo este depoimento de amor aos livros, dobrei muito cantos, assinalei muitas frases, anotei muitos livros a ler ou a reler, entre outros que perguntei a mim mesmo o porquê de não os ter lido… neste aspecto de livros e enredos, só é pena em alguns a autora levantar totalmente o véu e conter no seu livro spoilers, mas os mesmos fazem sentido e justificam o paralelismo com o que ela quer contar a nível pessoal.
Só já mais para o final voltamos a sentir o fantasma da doença, com a referência à arte de Lee Miller e à nomeação do cancro como uma doença canibal, uma auto destruição biológica, uma vingança do corpo contra si mesmo, como uma parte que se quer afastar do todo. E aí surge “A ilha” de Coetzee e Beckett ou Barnes e novamente Poe e novamente a frase chave: “Vive e inventa.”
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