«E a Noite Roda», de Alexandra Lucas Coelho :: Opinião

Quem já leu Alexandra Lucas Coelho saberá o quanto é difícil falar da sua escrita. Enquanto lia este «e a noite roda» apelidei-o logo de frenético, mas é mais. É um romance sem rodeios, sem floreados. É um relato de viagens bem viajado, de quem está num local e tem a cabeça num outro ou em vários, ainda assim, as referências que surgem de divagação, não atrasam ou demoram, antes pelo contrário energizam o romance, a viagem.

No Livro do Dia da TSF, Carlos Vaz Marques intitula esta escrita exacta e frenética assim “(…) com um poder de observação invulgar e sem excessos. Uma escrita no osso.” É isso mesmo, há aqui como que um esqueleto, frágil, mas complexo, que se enreda e se dispersa, mas nunca esconde ou “engana” o leitor. O fim é desde a primeira página anunciado, mas a atenção fica presa no querermos saber o que aconteceu, por onde viajaram Ana e Léon.

Tudo roda, a noite, os amantes, a política, a guerra, os fieis e os infiéis, a música, a vida. Às vezes tudo roda sem que nada saia do sítio e é essa a capacidade intrínseca na escrita de Alexandra Lucas Coelho de meter o leitor num rodopio.

“Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.”

Há sempre um jogo entre os amantes, uma ligação, que mesmo a milhares de quilómetros de distância tenta mantê-los unidos. Existe a falta que ambos fazem na vida do outro, mas há uma vida que mete outras vidas em jogo. Poderia ser apenas mais uma história de adultério, de vidas aceleradas, vividas ao minutos em ambientes de elevada tensão, onde o prazer justificasse as acções, mas não é isso que Ana nos vai relatando. A sua história com Léon assume mais que só esses contornos e é o tom vivo e enérgico, como quem está na rua e precisa de fugir a um conflito, mas tem de narrar a sua história, sem esquecer detalhes, mas sabendo que a economia das palavras a fará ganhar imortalidade.
A troca de mensagens é continua entre Ana e Léon e também isso dá outro clima ao livro, quando ela lhe relata o significado de “men aiuni” a expressão árabe que expressa muito mais que “dos meus olhos”. A intensidade do amor sente-se na agitação das vidas e na ausência que causam um ao outro.
“No começo de Abril escreves a contar que passaste três dias terríveis em Paris, a andar nos nossos passos, sentado à mesa onde uns apaixonados se olharam nos olhos e pediram champanhe e queijo, sozinhos no mundo. E perguntas se me deves contar isto (…) achas que o silêncio é mais obcecante?
Não é o silêncio que te obceca, sou eu, dizes.”
Longe de uma vida comum ou em comum o livro está pejado de detalhes deliciosos, sensíveis e que fazem o quotidiano dos apaixonados. Simples, mas muitas vezes angustiante. A certeza que o fim nos dá confunde-se com a incerteza do que ocorreu durante todo aquele tempo. Há acontecimentos chave que envolvem o leitor e um rol de referências, essencialmente as musicais que bem que o livro poderia vir acompanhado de banda sonora.
“O mundo real é o que inventamos para viver, não porque o mundo seja bom e belo, mas porque é sobretudo o contrário. Arrancar a vida ao dia-a-dia, será isso a poesia. E muitas vezes estamos incapazes de falar, é preciso simplesmente dizê-lo. Perdoa-me este P.S. Acordei como se me arrancassem o coração.”
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