“A Sereia Muçulmana” – João Céu e Silva :: Opinião

João Céu e Silva escreveu essencialmente biografias ou investigação literária e histórica, em 2002 publicou o seu primeiro romance «20 dias em Agosto» e em 2013 recebeu o Prémio Literário Alves Redol com este «A Sereia Muçulmana».
O júri destacou esta obra para vencedora devido à capacidade efabulatória do autor que é precisamente o que eu não apreciei na obra. Gostaria muito mais de ver debatidos, nem que fosse em conversas surreais com a cadela, as crises e angustias de quem esteve adormecido por tantos anos.
Trazer a obra de Heródoto para o enredo, parco, é uma fonte de distracção e não sei se facilmente iremos ligar, metaforicamente, cada história de Heródoto com os capítulos – perdidos – de um homem que “dormiu” 30 anos!?
Existiu um factor surpresa pelo qual não esperava, visto a sinopse não referir e eu não tinha lido mais sobre o livro, por isso, o coma de 30 anos foi momento alto que me fez prosseguir a leitura. Depois foi o querer saber por que motivo esteve ele em coma. A guerra, a guerra colonial e depois 30 anos de adormecimento. Será uma metáfora para o próprio país e não só para um homem?
O abandono da família, da mulher, o «adeus» no bilhetinho à entrada da porta… parece dramático e avizinha enredo, pede um desfecho para isso, a meu ver não o há e a história perde muito com isso.
A ligação ao actual e uma crítica à sociedade está subjacente em quase toda a narrativa, ainda assim parece-me megalómana a tentativa de abarcar décadas de acontecimentos em meia dúzia de páginas, como uma contextualização quase escolar. Fiquei na dúvida, já que a capacidade narrativa não está aqui em causa, mas sim, na minha perspectiva, a ausência de um enredo que cative e faça o leitor seguir um fio condutor.
É certo, são 30 anos na escuridão, no mais profundo sono, mas a tentativa de expressar essa angústia e ao mesmo tempo aventura deixa o leitor num misto de divagação e histórias sobre o homem que se pensa a si mesmo e quer manter um relato das suas acções… mas isto entre barcos, sereias e eventos pouco verosímeis… parece-me difícil.
No entanto, as questões que o personagem levanta são pertinentes e faz-nos pensar sobre a incerteza do futuro, mesmo até para quem não esteve em coma, ou será que o coma é um pensamento efabulado sobre a sociedade portuguesa em geral, será? Estaremos a dormir perante a realidade que acontece diante dos nossos olhos?
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