“O mundo ardente” de Siri Hustvedt

 

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                   “ – O mundo que vemos é um consenso – disse Sors. – A  maioria é que diz como é o mundo. Se a maioria olhar para uma mesa e disser que é uma mesa, a minoria que acha que é outra coisa é internada. O processo é simples, basta ver, no mundo à nossa volta, coisas que os outros não vêem. Na verdade existe uma luz que nos entra pelos olhos e outra que nos sai dos olhos. Quando se encontram, criam o mundo que vemos.”

 Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

 

 

 

Quando acabei a leitura deste “O Mundo Ardente”, soberbamente imaginado e escrito por Siri Hustvedt, espantei-me com a quantidade de “post-its”, a marcar passagens especialmente interessantes, que nele estavam colados. Sim, este labirinto polifónico, brilhante e incomum, povoado por personagens fortes e intrigantes, possui todos os ingredientes que compõem um romance de excelência. E levanta imensas questões acerca de temas que me tocam particularmente como o papel das mulheres na sociedade “ocidental” ao longo dos tempos, nomeadamente como pensadoras e artistas, e a natureza da percepção humana. O que é o mundo? O que vemos, como vemos e porque o vemos. Estes assuntos fascinam e atormentam Harriet Burden, a protagonista, mulher inteligente, criativa e culta e conduzem-na à criação de três heterónimos masculinos, não imaginários mas de carne e osso, para provar que a arte produzida por mulheres é ainda menorizada relativamente àquela realizada por homens. Este é o fulcro do romance. Não só a problemática do género mas também a percepção; o que é? Como se avalia? O que a influencia? Vemos aquilo que realmente existe ou vemos apenas o que queremos e esperamos ver? Em que medida criamos a realidade que vemos? O nosso cérebro detecta padrões, gosta de padrões e tem dificuldade em “ver” aquilo que é diferente, que não encaixa no padrão. O que somos condiciona literalmente o que vemos e o que escolhemos. Existirá verdadeiramente uma única realidade objectiva? Mas não se pense que este é apenas um romance “cerebral”. Há nele uma riqueza de emoções, de relações humanas, no seu melhor e no seu pior, por vezes, mesmo uma força visceral que me agarrou e encantou. Contém também inúmeras referências a artistas, livros, filósofos, cientistas e obras de arte que fazem todo o sentido tendo em conta as características da sua protagonista. Algumas são explicadas em notas de rodapé e não as considero desajustadas nem maçadoras. Pelo contrário, aprendi imenso com elas.

Não me alongo mais até porque deixo aqui uns excertos bem mais extensos do que o habitual, não consegui resistir e não foi nada fácil seleccioná-los. Escusado será dizer que recomendo este “O Mundo Ardente”. Especialmente a quem se interessa pelas questões acima abordadas.

Excertos:

“A vida é caminhar em bicos de pés sobre minas terrestres. Nunca sabemos o que temos pela frente e, se querem a minha opinião, também não dominamos o que deixámos para trás. Mas uma coisa que sabemos fazer muito bem é contar a versão que melhor nos convém e dar cabo da cabeça a tentar que bata certo.”

“Sem a aura de grandeza, sem a sanção da cultura erudita, sem o carimbo da celebridade ou da moda, o que é que sobrava? O que era o gosto? Haveria alguma obra de arte que não estivesse carregada com as expectativas e preconceitos do observador ou do leitor ou do ouvinte, por mais culto e refinado que fosse?”

“Eu não podia dizer à Harry, guerreira feminista, que era pior para um homem, pior para um homem falhar, perder o ritmo da sua passada ao sentir o poder ser-lhe sugado das tripas, o fogo viril que o impelira colina acima. Milénios de história tinham empilhado expectativas sobre ele, pedra a pedra, tijolo a tijolo, palavra a palavra, até as pedras, tijolos e palavras pesarem tanto que o esperançoso anti-herói não consegue sair de debaixo deles, não consegue descortinar o seu caminho para uma só linha que possa chamar sua e contorce-se debaixo das toneladas de peso, implorando misericórdia.
Apesar dos seus medos do exterior, a Harry era livre por dentro. Acreditava na sua raiva e fúria, e expelia a arte de dentro de si como recém-nascidos molhados e ensanguentados.”

“Vou construir uma mulher-casa. Terá um interior e um exterior, para podermos entrar e sair dela. Tem de ser grande, e tem de ser uma mulher difícil, mas não pode ser um horror natural nem uma criatura de fantasia dotada de uma vagina com dentes. (…) Não, ela tem de ser verdadeira. Tem de ter uma cabeça tão importante como a cauda. E haverá personagens dentro dessa cabeça, homenzinhos e mulherzinhas embrenhados em diferentes actividades. Eles que escrevam e cantem e toquem instrumentos e dancem e leiam discursos longuíssimos que nos põem a todos a dormir. Ela que seja a minha Senhora Contemplação em honra de Margaret Cavendish, duquesa de Newcastle, essa monstruosidade do século XVII: intelectual do sexo feminino. Autora de peças, romances, poemas, cartas, filosofia natural e uma ficção utópica, O Mundo Ardente. Chamarei O Mundo Ardente à minha mulher em homenagem à duquesa.”

“Eles espezinham os sulcos da tua mente, Harry, esse ermo pregueado de matéria cinzenta, os dois homens que querias mas que não pudeste ter, o teu pai e o teu marido. Não foi só uma questão de amor. Foi aí que te enganaste. Hoje, tens noção disso. Não foste a eterna fêmea suplicante a balir ao longo das épocas, amo-te e quero que me ames, e esperei por ti, meu amor, de mãos entrelaçadas e cabeça baixa. Não sou esse exemplo de virtude, Penélope, à espera de Odisseu, rejeitando os pretendentes.
Eu sou Odisseu.
Mas descobri-o demasiado tarde. (…)
Sou Odisseu, mas já fui Penélope.”

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