Tempo de Partir – Jodi Picoult

01040603_Tempo_De_Partir“Tempo de Partir” é o sexto livro que leio de Jodi Picoult. Sabia à partida que seria arrebatada por um livro surpreendente, possivelmente perturbador e certamente imprevisível. Parece uma expectativa ridícula de ser ter ao início. Não é. Que já leu livros da autora perceberá. E eu não estava preparada para me desiludir. Nem queria. Por vezes imagino como se preparará Picoult para um novo livro, sabendo que os seus seguidores esperam o máximo, esperam melhor, esperam por aquele momento do livro em que tudo tão deliciosamente se desmorona, e surge, perante os seus olhos, um cenário que sempre ali esteve, tão óbvio, escondido da melhor forma possível: à vista de todos.

Tudo o que possa dizer mais do que isto será perigoso para quem queira ler “Tempo de Partir”, e deseje chegar na mais pura ignorância ao “ponto de não retorno”, mesmo assim tenho de continuar. É que se há criatura que eu admiro é o elefante, e este livro está cheio deles, e dá uma visão do seu modo de vida que eu considero real, pelo pouco que já li, e que me fez interessar por estes animais com características tão semelhantes aos humanos, a alguns humanos pelo menos. Em relação a outros, o elefante supera-os em grandes doses de humanidade. Um bicho gigante, com um poder de destruição enorme, que nunca esquece, que tem um amor inesgotável pelas crias, para toda a vida, que chora os mortos e faz o luto. Que protege, chora, sente.

Alice conta-nos tudo. Através dos seus diários de pesquisa dos tempos que passou em África, observando elefantes, estudando e desenvolvendo teorias pouco levadas a sério pela comunidade científica, mas que para mim, como leitora, me convenceram, e isso, é do mais importante num livro. Jodi Picoult escreve muito bem, mas não é extraordinária, nem o poder dos seus livros está numa escrita elaborada ou profunda, mas sim na capacidade que ela tem de fazer acreditar que um sapato pode ser uma janela (exemplo parvo da minha autoria). Neste ponto ela é, de facto, admirável.

Os diários de Alice são, para Jenna, as únicas memórias da mãe. O mais comum é serem os pais a procurar os filhos desaparecidos, aqui temos uma adolescente que há dez anos perdeu a mãe, sofre com o trauma de ter sido abandonada, mas na verdade não sabe o que se passou, se a mãe fugiu, e se sim, porque o fez deixando-a para trás, ou se estará morta. Jenna é mais uma das personagens-crianças-prodígio de Picoult, temerária, determinada e rebelde, decide, aos treze anos, encontrar a mãe.

Aqui o livro começa a assumir contornos de um policial, dado o mistério em redor do desaparecimento de Alice, e a forma como a história se vai adensando em torno da noite em que mãe e filha se separaram. Jenna procura a ajuda improvável de uma médium decadente e de um detective alcoólico, personagens que levam a tristeza das suas vidas vazias ao nível de se lhes desejar a recuperação. Um trio quase impossível de acreditar que possa ser real, mas que a criatividade da autora torna o leitor cego para discernir o possível do impossível. E é bom cair numa história que vale por si própria, em que nos enredamos, e de onde não desejamos sair. Saímos. Mas não os mesmos. Dos livros de Jodi Picoult não se sai ileso. E ainda bem.

“Têm de compreender que há romance em África. Podemos contemplar um pôr do sol e acreditar que vimos a mão de Deus. Observamos o movimento lento de uma leoa e esquecemo-nos de respirar. Maravilhamo-nos com o tripé formado por uma girafa curvada para beber água. Em África há azuis iridescentes nas asas de pássaros que não se veem em mais lado nenhum da natureza. Em África, no calor do meio-dia, podem ver-se bolhas na atmosfera. Quando estamos em África sentimo-nos primordiais, embalados no berço do mundo.” (Pág. 226)

Sinopse

“Durante mais de uma década, Jenna Metcalf não deixa de pensar na sua mãe, Alice, que desapareceu em misteriosas circunstâncias na sequência de um trágico acidente. A criança que era então não conservou lembranças dos acontecimentos, mas Jenna recusa-se a acreditar que a mãe a tivesse abandonado e relê constantemente os diários que ela escrevia com as observações da sua pesquisa sobre elefantes, tentando encontrar uma pista oculta.
Desesperada por obter respostas, Jenna contrata dois improváveis ajudantes, uma médium famosa por encontrar pessoas desaparecidas e um detetive que já tinha estado envolvido na investigação do desaparecimento de Alice, e parte determinada a descobrir a verdade.”

Editorial Presença, 2015

Tradução de Manuela Madureira

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