O que não pode ser salvo – Pedro Vieira

o quenaopodesersalvoAberta a primeira página começa a viagem. Sem volta. Que o caminho é em frente, sempre e até ao fim. A leitura não é compulsiva mas é obrigatória, impõe o seu ritmo e arrastou-me numa batida sem regras. Não há gramática que nos salve, pelos vistos não há coisa nenhuma que nos salve, segundo o autor. E eu concordo, infelizmente.

Gostei muito. Mas cheguei ao fim sem perceber como se escreve assim, tão fora das linhas, será isto escrever certo por linhas tortas? Escrever como quem abre uma torneira que não se fecha mais, e sai tudo, cru e duro, escrever como se fala agora, e fala-se tão mal, usando calão, abreviaturas e tudo o que mais literariamente devia fazer arrepiar os cabelos, e depois é algo assim tão profundo e verdadeiro, que mete respeito, e um bocadito de inveja, vá, da boa, pronto.

A cada capítulo uma dose de realidade, igual à que levamos todos os dias, mas à qual nos habituámos, criaturas acomodadas mas com a revolta a crescer no peito, mais um dia ou menos um na selva controladora do emprego, em que não vence o mais forte mas o mais fraco, o mais submisso e baixo, na prostituição da alma, nas lágrimas que guardamos para chorar em casa, sós na era da comunicação, cercados pelas redes sociais e pelos nossos mais de quinhentos amigos. Mas sós, pelo prazer parvo do individualismo, essa entrada para o buraco da solidão.

A história é muito boa mas não me apetece falar nela. Leiam a sinopse e leiam o livro. O que me encheu as medidas foi a escrita-torrente que me arrastou com força direita a doses de realidade que reconheço, infelizmente, reconheço. Muito original e inesquecível. Marcante. Brilhante. Talvez, no futuro, um documento social dos dias de hoje.

“Amílcar e Neda aterram numa das europas possíveis, aquela onde se comunica melhor, onde se pressentem raízes, o passado em comum e a saudade a fazer de elo import-export, Amílcar e Neda aterram naquela onde se vive pior, não há sequer pequenos-almoços grátis quando os aviões chegam em simultâneo à Portela, carregados de imigrantes uns, carregados de senhores do Fundo outros, é a segunda vez que cá chegam com licença para matar, 1983 e o devir feito negrume, porque andaram a viver em cima das nossas possibilidades, mote recuperado tantos anos depois. À época, para vidas a prazo, contratos a condizer. Cintos apertados, cinturas de vespa vincadas à força, uma elegância. Das quatro operações aritméticas só duas estavam em vigor, subtrair e dividir por quantas bocas houvesse. E no que toca aos transladados das ilhas, outro tanto de mau viver, mas com direito àquela cantilena da luz ao fundo do túnel e as bocas abertas de espanto por parte dos que vêem os outros chegar” (Pág.63.64)

“este caldo de cultura que é um achado, um país pobre com uma boa rede de fibra, ouro sobre azul do Atlântico, cheio de gente em desespero mas sem vontade de partir a loiça, de partir a fibra, no lugar da tal primavera dos árabes o outono dos orgulhosamente sós, mesmo numa época de fronteiras-fantasma, nota 10 para este fio da navalha que vai permitir que muitas empresas do ramos do costumer, ao client, com sotaque francês, ganhem raízes e dêem emprego a dezenas de milhares de pessoas interessadas em desenvolver as suas capacidades e em progredir na carreira e em abraçar o empowerment ao serviço de uma subcontratada, que no fundo faz parte da mesma casa-mãe, em cada corporação um édipo que distribui flexibilidade, salários baixos, rigor e crescimento económico, oportunidades e um cheirinho de chicote” (Pág. 76, 77)

Sinopse

“Um triângulo amoroso que liga França, o Norte rural português, Lisboa e a margem sul. Uma jovem francesa, filha de emigrantes portugueses, que vem viver para a terra a que não pertence; um rapaz que luta para sair do meio devorador em que nasceu; um miúdo burguês, canhestro, com uma família de fachada; e um quarto elemento que completa o elenco de uma tragédia contemporânea de ressonâncias clássicas: história de amor, racismo, ciúme, traição, vingança e inquietação, qual Otelo de Shakespeare e de fancaria na era do rap, do Facebook e do call center.”O Que Não Pode Ser Salvo” é também o retrato dos males sociais e culturais que afligem um país enfraquecido pela crise económica e a falência dos valores.”

Quetzal, 2015

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