Elegia para um americano – Siri Hustvedt

elegiaHá livros, como este, dos quais se deve tirar o melhor partido possível. Por ser completo. Por dar a oportunidade ao leitor de possuir uma história que é feita das histórias das personagens, que sente como suas, porque poderia ser a sua história. E por definir um estilo, uma escrita única, brilhante, e quase perfeita.

Siri Hustvedt faz este milagre da escrita bela e cuidada, mas intensa e profunda, que li com prazer, voltando atrás para apreciar várias passagens que me marcaram de forma especial, levando o pensamento a tantos locais íntimos, a tantos pedaços de mim que, surpreendentemente, estão neste livro. Porque narra pessoas nas suas vidas banais, nas suas relações diárias, fala da vida e da morte. Triste, como se tornou a humanidade, pedaços solitários de seres que se isolam, sofrem para dentro e desabafam com o “Médico das Preocupações”.

Erik é o americano triste deste livro, psiquiatra, divorciado, e extremamente só, que, com a irmã Inga, viúva, tenta descobrir um segredo do passado do pai de ambos, agora morto. Mas esta busca interessa pouco, é uma desculpa para conhecer Erik e Inga. E partindo destes, os seus amores, fracassos, vitórias e tristezas, em ramificações de pessoas que se relacionam, influenciam, perturbam e amam. Como em qualquer lugar do mundo, apesar de geograficamente se situar em Nova Iorque.

Não é um livro feliz. Intensamente humano.

“Tinha acabado de escrever o meu livro. Custou-me tanto escrevê-lo, foi tão doloroso, mas eu sabia que era muito bom, diferente. E também sabia, ou pensava saber, que seria atacado ou, pior, ignorado. Para mim, isso era difícil de suportar. Protestava, gemia, queixava-me do destino que me coubera, o de mulher intelectual esquecida e incompreendida. Sofria antecipadamente o que temia vir a acontecer-me e fiz o Max sofrer com isso. (…) O problema é que todos nós somos cegos, dependentes de representações predeterminadas sobre o que acreditamos que vamos ver. É o que acontece na maior parte do tempo. Não experienciamos o mundo. Experienciamos as nossas expectativas acerca do mundo. Essas expectativas são muito complicadas. E as minhas tinham-me enlouquecido.” (Páginas 126 e 127)

Sinopse

“Ao tentarem pôr ordem na casa do pai recém-falecido, Eric e a irmã, Inga, descobrem um bilhete de uma mulher desconhecida. Algo no teor desse bilhete indicia que um segredo do passado continuava a atormentar Lars. Erik vê na solução desse enigma o derradeiro acto de aproximação a um homem que nunca compreendeu, mas tanto a vida dele como a de Inga estão a atravessar fases muito complicadas. Inga, viúva de um escritor famoso, está disposta a tudo para defender a reputação do marido e reaproximar-se da filha, Sonia, terrivelmente marcada pela memória dos atentados do 11 de Setembro. Por seu lado, Erik materializa a sua própria solidão num mantra espontâneo que o embaraça mas em relação ao qual nada pode – “Sinto-me tão só”, repete ele, mas poderiam ser todas as personagens desta Elegia a dizê-lo; nova-iorquinos solitários, perdidos no frenesim da grande metrópole, entregues aos seus segredos, memórias e sonhos, incapazes de qualquer acto de reconforto.”

Asa, 2009

Tradução de Miguel Castro Caldas

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