“Os Lança-chamas”, de Rachel Kushner :: Opinião

 Imagem de capa do Jornal Volsci (1980)

Não sei se fiquei fã de Reno, protagonista pseudo-feminista deste lança-chamas ou sequer de Rachel Kushner, já que experimentei sentimentos vários com a leitura deste livro difícil e com partes, para mim, a roçaram o entediantes. Kushner faz uma viagem a toda a velocidade por uma série de acontecimentos reais dos anos 70, viajando entre Nova Iorque, Milão e Roma, misturando-os com eventos pessoais das suas personagens, das muitas que compõem o espectro de amigos, paixões e conhecidos que acompanham Reno.

Reno, nome fictício dado à mulher motard que enche a acção deste relato, é-lho atribuído devido à referência a Reno, Nevada, local de proveniência e à sua vontade de correr nos desertos de sal – Bonneville Salt Flats – no Utah. As referências geográficas bem como as mecânicas são detalhas e descritivas, intensamente, e logo desde o começo o livro demonstra que a velocidade que poderia ter, perde-a aí, nesses momento de longa narrativa sem que nada aconteça e quando acontece é pouco marcante.

Após várias personagens serem introduzidas e percebermos o desejo de Reno se tornar uma artística reconhecida, caminho que poderia ser facilitado pelos contactos de Sandro Valera, a meu ver com uma história de vida mais intensa e interessante, e é pela descrição da sua vida familiar que ficamos a ter bons momentos de narração, quase turística, que nos transportam a Milão ou Roma. Sandro Valera é filho do magnata da borracha e também das Valera, motos cujo as imagens reais vão dar a referências do livro ou da Ducatti… fiquei na dúvida.
É entre Ronnie e Sandro que Reno retira algumas ilações sobre a juventude e o poder da idade, mas também do mundo da arte e da sua própria condição de ser mulher, no entanto ficam-se por breves frases, não mais.

“Tens o luxo do tempo. És nova. Os jovens estão a fazer qualquer coisa, mesmo quando não fazem nada. Uma mulher jovem é uma via. Tudo o que tem que fazer é existir.” (pp.37)

“- Eu não tenho um salário, sou artista, não faço parte do sistema.” (pp.101)

Oscilando entre a influência de Ronnie e Sandro, Reno (gostava mais que a tivessem intitulado de Valera!) vai descobrindo a arte e a política como forma de manifestação, como fuga às normas e uma forma revolucionária de viver os tempos já de si instáveis.
Gostei de a meio das descrições mecânicas de motos, escapes, corridas, aceleração, derrapagens, saber o slogan da Honda nos anos 70 que já dá uma perspectiva da própria mensagem da autora.

“A velocidade é um direito do homem.”

A velocidade atingida por Reno na competição dos desertos de sal não corre como esperado e aquilo que parecia ser um dos eventos mais interessantes, que seria a volta dela às corridas para captar imagens de Land Art, rapidamente se perde e o leitor perde também a esperança de a “ver” correr novamente.
A partir daí a relação de Reno e Sandro estreita-se e temos uma incursão ao cerne da família italiana e a escrita volta a ter períodos que oscilam muito, tendo nas partes descritivas muita perda de tempo, pior, muitos dos intervenientes na acção também não lhe acrescentam nada, já que a maioria das conclusões a que Reno chega, consegue-as por ela mesma, o que faz perguntar se os outros estão ali só para as divagações e deambulações!?

“Fiquei muito tempo a seguir a lenta deriva das nuvens, grandes massas fofas tosquiadas a direito nas arestas inferiores como se estivessem a derreter num tabuleiro quente.” (pp.13)
Um cenário quase sereno mas também onírico e meio delirante que julgo traçar um caminho que se percorre em todo o livro de Kushner.

O livro ganha uma nova vida com o capítulo da marcha sobre Roma e a fuga com Gianni e talvez seja com ele que a tão referida metonímia de Sandro ocorra. A fuga como metonímia da emancipação e aprendizagem de Reno.
Resta ainda pensar se a designação de Roma: Cidade Aberta será uma metonímia para algo.

Ficam também alguns registos musicais dos quais adorei descobrir Big Jay McNeely.

Não podia terminar sem dizer que descobri neste livro um nome fantástico para um cão, o Gorgonzola e depois ao pesquisar por fotos sobre da Marcha sobre Roma, pelo fotografo Larry Fink, dei com a Mostra Internacional de Fotografia de Roma e descobri esta foto irresistível.
Aqui fica a minha versão de um possível Gorgonzola.
Fonte: http://julietartmagazine.com/en/fotografia-festival-internazionale-di-roma/
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