Quem disser o contrário é porque tem razão – Mário de Carvalho

Quem disser o contrário é porque tem razão_15-10-2014Um livro que li como quem vai à escola, cumpre os horários das aulas, e estuda. Com prazer. Deliciei-me com estes ensinamentos em tom leve e divertido, com uma abordagem, por vezes irónica, de temas pertinentes para quem quer, sonha, ou deseja escrever um livro. Ou para todos aqueles que, simplesmente adoram livros, e queiram fazer uma viagem pelo que possa ser a construção de histórias, personagens, escolha de palavras, e caminhos a evitar para chegar, esgotado mas feliz, ao fim. Ao livro.

Na verdade não oferece nada de novo, mas a forma como explora o que já sabemos é genial. Quem quer escrever sabe (acho eu) que o percurso é sinuoso e que há uma série de opções a evitar. Chavões e lugares comuns são a morte do artista. Há que criar um estilo, ser original, único. Fazer com que o leitor acredite nas maiores mentiras. Escrever pode ser um dom, mas sem trabalho é coisa nenhuma. Esforço. Sangrar de dentro. E ler muito. De tudo, sem preconceitos.

“Quem disser o contrário é porque tem razão” disserta sobre tudo o que já sabemos de modo envolvente, credível e entusiasta. Aconselha, aponta direcções, dá a conhecer alguns truques e dá liberdade de se seguir um caminho. O caminho secreto que está dentro de quem escreve. Alarga horizontes, dá novas perspectivas, ensina palavras novas, mostra a imensa cultura, talento a capacidade de escrita de um autor que me envergonho de não conhecer. Circunstância a reverter com urgência.

Empolgante. Motivante. Marcante. Um livro que fala, interroga, e ao qual dá vontade de responder. Respondo sublinhando, marcando páginas, escrevendo e roubando as passagens preferidas (tantas, tantas) para reler até ao infinito.

Sublime e imperdível. Merece que se inventem adjectivos novos só para o caracterizar.

“Leia muito, leia por gosto, leia por curiosidade, leia por desfastio, leia por obrigação, leia por indignação, mas leia, leia, leia de tudo, sem preconceitos nem reservas. Há quem diga que com os livros maus se aprende mais do que com os bons. O leitor que vai iniciar-se na escrita literária precisa de um património, precisa de recursos, precisa de provisões, como alguém que vai enfrentar uma rota esplendorosa de paisagens, mas de longo curso e piso acidentado. (…) É vantajoso ler-se desprendidamente, sem preconceitos e sem parcialidades pré-estabelecidas. E sem superstições. A própria prática da escrita fará chegar o tempo da selecção, da exigência, da separação das águas. Até lá, ver como tudo funciona: desde o registo mais melodramático, ao livreco de mistério mais pernóstico, o policial mais endurecido (mesmo hard-boiled – “A eles, Mac!”), que venha tudo à rede. Até que – a isto poderá chamar-se depuração do gosto – a banalidade se torne insuportável pelo confronto da excelência e vá ficando de lado, como um resíduo que se desprende. Vai nas águas barrentas. Sobram as palhetas a faiscar no alguidar do garimpo.” (Págs. 28/29).

Sinopse

“Ser escritor. O texto ficcional. Dilemas, enigmas e perplexidades do ofício. No vale das contrariedades. Nada do que parece é. O «assertivismo» é um charlatanismo. A valsa dança-se aos pares: escrita e leitura, autor e leitor, personagem e acção, causalidade e verosimilhança, contar e mostrar, o dentro e o fora, a superfície e o fundo. O bico-de-obra do primeiro livro. Por onde começar? Com que começar? Com quem começar? A manutenção do interesse. Não há regra sem senão; não há bela sem razão. Ou o oposto. Riscos, cautelas e relutâncias.”

Porto Editora, 2014

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