“O que não pode ser salvo” de Pedro Vieira

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Terminar a leitura. Pousar o livro e respirar; respirar fundo, várias vezes, ainda sob o encantamento das palavras lidas. Um espanto! Neste romance o ritmo imposto pela escrita do autor tira-nos o fôlego; é rápido, muito mesmo: Mach 3,4 ou 5… 300.000 km/s, talvez. As palavras sucedem-se, a uma velocidade voraz, quais balas feitas de ironia, mordazes, eficazes, certeiras. PUM! Em cheio na “mouche”. São palavras-cola, mantêm-me agarrada às páginas, sem dó nem misericórdia. Um livro feito para ler de um trago só, sem paragens nem distracções, porque a narrativa se vai progressivamente entranhando dentro de mim, sob a pele, correndo nas veias a cada palavra, frase e página; uma leitura compulsiva, sucessão de instantes efémeros e intensos, carcereiros de toda a minha atenção. Não desvia os olhos, não respira. Lê. Mas “O que não pode ser salvo” é também um documento, um testemunho preciso, lúcido e sem contemplações sobre o tempo que nos coube em sorte viver, sobre Portugal neste início de século. Aqui mora a precariedade travestida de flexibilidade, instrumento de excelência para controlo das massas, pântano da falta de perspectivas de vida condigna para muitos e garante de vida fausta e fácil para poucos, fiel da balança cada vez mais viciada da ordem social do costume: esmagar, manter na ignorância e tornar insignificante para melhor dominar. Pelo meio encontram-se as eternas e equívocas complexidades das relações e do desejo humanos. Também estas e este os do costume: amor, morte, inveja, ódio, intriga, cobiça, luta, esperança, resignação, vontade. Os nossos “lugares-comuns” de sempre transmutados e revestidos da parafernália da era da comunicação aparente, permanente e instantânea e, claro, apresentados de forma tão genial que deixam de o ser.

Quanto ao estilo da escrita de Pedro Vieira, algo diferente do habitual, digo apenas que me agradou imenso; não tenho pretensões nem habilitações de especialista em literatura, nem tão pouco de crítica literária. Quanto aos livros: ou gosto ou não gosto, reino supremo da subjectividade pessoal e intransmissível. Ponto. Deste gostei e muito. Para além de tudo isto, foi um prazer enorme ler um romance sem ter de “levar” com a nova “aberração” ortográfica, perdão, novo acordo ortográfico.

Termino deixando aqui alguns excertos e o vídeo de “Construção” do fabuloso Chico Buarque uma vez que esta canção é citada no livro.

Excertos:

“Se ao menos se pudesse viver no toma-lá-dá-cá das relações sem mais cercos do que os absolutamente necessários, a saber, a família que os calha, os amigos seleccionados a dedo ou segundo uma conveniência, os colegas de trabalho, que são hoje baptizados de “colaboradores”, já ninguém os trata, nos trata, por trabalhadores, não vá a peçonha do sindicalismo das horas extraordinárias dos amanhãs que cantam das greves dos direitos da cassete que enrola sem cessar pegar-se ao bom desempenho da organização, mais formação em outsourcing, menos conversa para boi dormir no plenário, já só restam meia dúzia de líricos, como diz a canção, se bem que esses ainda se atrevem a levantar a garimpa, coitados, a realidade há-de encarregar-se de abrir-lhes os olhos enquanto é tempo, alguém que lhes enfie a palavra competitividade pelo discernimento adentro, e resumindo, excepção feita ao que é imposto pela tarefa com nome de existir passar-se-ia bem sem a música, que está por todo o lado, música de elevador de estação de metro de centro comercial de chamada em espera de restaurante de consultório de esplanada de de de, ou sem as solicitações que não param de chover via telefone, via email, via Viber, via chat, via WhatsApp ou via redes sociais todas ao mesmo tempo ou à vez (…) e transpiras quando são elas próprias, as redes, a criarem vida, a encostarem o dedo ao teu peito, a fazerem perguntas em nome da informação que tem sempre de andar cá e lá, ontem Hermes ou Mercúrio , hoje o teu mural que insiste em perguntar “em que estás a pensar?”, questão universal e dirigida a todos os toxicodependentes da rede, digam de vossa justiça,, partilhem o vosso estado de espírito, construam o vosso aforismo de alto gabarito, espalhem o melhor vídeo de sempre, ou pelos menos tendo em conta o mês passado, atirem às ventas uns dos outros a vossa indignação do dia, CHEIA DE MAIÚSCULAS, escolham uma citação e publiquem-na (…)

“Antes de enfrentar a noite em claro, recorda o chorar porque, o sofrer porque, a empatia de plástico daquelas mulheres que não conhece e que lhe seguram a mão com dó de um lado e curiosidade cega do outro, ceifeiras do sentimento alheio, mais uma ironia estúpida que é despedirmo-nos de quem já não nos pode ouvir (…)

“Trio desfeito depois da conversa em sede de amizade e à mesa de café, cada um para seu lado, um por todos e todos para casa, lema-cola-de-contacto dos três mosqueteiros possíveis numa narrativa sem D’Artagnan, sem heróis velados, sem factores-surpresa, até porque estas dinâmicas se dirigem para o patíbulo da previsibilidade, da crispação e desentendimento e desilusão, erosão e fractura à vista, mas por enquanto ainda vamos na fase da construção, por esse pão para comer, por esse chão para dormir, por esse amor por fazer à vista de toda a gente, relações andaimes com falhas nas juntas, os parafusos da confiança ainda por apertar, Janine em versão fio-de-prumo mas a pender para um dos lados, para o lado de Mateus (…)

 

 

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