Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana :: Opinião

“Não estou a falar de um mero jogo de combinações e articulações, à maneira de um puzzle, e sim da literatura como experiência limite, porque a literatura é uma experiência sobre aquilo a que chamamos limites, sobre o limes, que em latim significa também fronteira, delimitação, portanto, metonimicamente, um espaço onde o confronto e a experiência da morte são possíveis.”

É exactamente numa experiência de puzzle a várias vozes que Maria Manuel Viana nos expõem uma geografia de afectos com fronteiras que não podem ser cruzadas, barreiras intransponíveis pelo que não pode ser dito, num mundo familiar onde os movimentos são estudados e os intervalos concedidos evitam os confrontos e a multiplicidade de resultados nefastos que daí poderiam ser escutados. Num relato sempre intenso o leitor é arrebatado para a linha de tensão no limite da vida, no hiato que é ou pode ser um enterro, Ele morreu, o Escritor, a persona a que muitos se referiam, mas poucos conheciam ou com quem privavam. A família assiste, instrospectiva e atenta, ao tom isolado e alheado de Mariana e todos, um por um, avaliam e pesam este confronto com o fim pensando no que a vida lhes tem reservado.

“(…) imagine o mundo como uma pirâmide dos possíveis, cuja a base tenderia ao infinito, onde cada um poderia ver e escolher as diferentes possibilidades: ama não ama, morre não morre, mata não mata – haverá melhor matéria literária? (…) não me interessa a gramática dos conceitos e sim inventar, a partir do que neles vi, uma geometria de afectos que será sempre a base de um romance meu, as relações entre as personagens, os movimentos, as velocidades, os hiatos, os intervalos, as pausas e os avanços, as precipitações, os confrontos, a duplicação e a multiplicidade, as linhas de tensão, os limites e os ângulos.”

Utilizando exactamente esta completa e complexa geometria de palavras, entramos num relato familiar onde nada do que é dito, cada um por sua vez, fica completo, cumprindo muito bem “o que não pode ser dito” ou o que “talvez seja dito”, acreditando até que muito ficará por ser dito, aumentando assim a extensa teia da tal matéria literária que é a realidade e por sua vez a imensidão de possibilidades que é a vida, num jogo ainda mais articulado que é a literatura.

“Porque a literatura, sabe?, é exactamente o oposto deste neopopulismo anti-intelectual que defende uma escrita linear para chegar ao grande público, esquecendo a herança de vinte e oito séculos e recusando-se a perceber que a literatura só persiste porque reescreve, revolucionariamente, não só o mundo em que vivemos como tudo o que já antes foi escrito.”

Maria Manuel Viana leva-nos não só a entrar na ficção familiar aqui intensamente relatada, como a pensar na nossa mesma, permitindo-nos equacionar o seguimento de determinados acontecimentos que julgamos factuais e até limitados, o que me levou a questionar ate que ponto a realidade familiar e limitada no espaço e no tempo!? Mas este romance faz-nos ir mais além, é pensar a literatura, a palavra escrita, o amor aos livros e a até a responsabilidade que atribuímos a um autor, no final creio que é uma questão de pensarmos a individualidade, pois só ela nos confere o papel genuíno e autêntico no círculo onde nos inserimos.

“(…) apenas o nome próprio porque a sua existência não advém de nenhum parentesco, a individualidade que só o nome confere precisa de ser mantida para lá de circunstância fortuitas e desinteressantes como serem pais (…) é uma infantilidade egoísta querer que uma mulher passe a ser igual a todas as outras só porque teve um filho, é como retirar-lhe a identidade própria.”

Julgo que há em todo o romance, a extrema preocupação de conferir o máximo de vida a todas as personagens, tornando-as todas tão interessantes e próximas de algo ou alguém nosso, fazendo com que o leitor se apegue ainda mais ao livro.

“(…) poderia ter procurado esses dois livros na biblioteca, tê-los lido e descoberto que o que não pode ser dito se transforma primeiro no que talvez seja dito, mais tarde no que irá ser dito, mas nunca o fizera, embora a aprendizagem mais solitária e importante de toda a sua vida tenha sido a de que os livros substituíam a vida, (…) e, sobretudo uma barreira contra o sofrimento.”

Sem dúvida que o padecimento pauta este livro e é comovente a forma como o enterro e a morte são pano de fundo para todos os episódios de vida revivida, chegando a ser incomodo o silêncio e a solidão de cada personagem, cada uma tão próxima da outra, mas efectivamente tão afastada, calada e sofrida.

“foi o senhor quem me ensinou que o corpo é pensamento, o pensamento revolução e a revolução emancipação de todas as tutelas e opressões.”

Fica Bach nas mãos de Tatiana Nikolayeva, não a partita 4, mas esta parte da 6 que fiquei a adorar.
Boas leituras!
«Teoria dos Limites» é uma edição Teodolito, 2014.
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