“Vou imigrar para o meu país” de Nuno Costa Santos – Opinião

Vamos pelas palavras deste “marginal ameno” como fiéis portugueses que também querem imigrar para o este nosso ameno e recatado país.

Nuno Costa Santos critica apaziguadoramente aquilo que lhe apetece, dá-lhe na telha e escreve, descrevendo o que observa, situações quotidianas, comuns a todos e sobre as quais facilmente já nos questionámos. É fácil rir com Costa Santos, avaliar de forma amena, mas sincera este país por onde vamos todos nos encontrando, falando e criticando, mas sempre de forma amena, garantindo o tipo de poltrona em que cada um cabe.

“Por aqui” vamos entrando e passando de bairro em bairro até chegar ao individual, a cada pessoa, são essas as três partes que dividem estas crónicas que estão, necessariamente, todas ligadas e compõem um olhar, uma perspectiva do nosso país.

Nesta imigração diagnostica-se muito bem o ambiente, os vícios, os ossos do ofício, as manias e as aspirações do local que acolhe o imigrante, os outros, nós, eles… todos os portugueses. Neste relato humorístico da actualidade estamos lá todos e é por isso que é tão real.

É inevitável colocar excertos, em jeito de declarações, de conclusões, de constatações:

“Vivemos num estado de emergência cultural.”

“A paneleirice é um vício português que nada tem a ver com a orientação em matéria de sexo. Pode atingir todo o heterossexual, homossexual e bissexual. É um sinónimo de mesquinhez. (…) Os portugueses são mais dados à paneleirice do que à inveja. Tinha de ser dito há muito tempo.(…) Passamos o tempo a discutir nos cafés e agora nas redes sociais as declarações e as gafes das figuras públicas, corrigimos o português dos outros como se quem corrige nunca tivesse errado, dizemos a quem trabalha: «Eu teria feito de forma ligeiramente diferente.» Mas há mais.Na paneleirice o português é infinito.”

em «Vida sem fios» (…) Quando quero procurar um instante de recolhimento vou para territórios onde não há internet. Bibliotecas velhas, tascas.”

em «Selva alheia» (…) Sim. bem vistas as coisas, percebo mal o mundo quase todo.”

E poderia continuar.

Já quase na parte final, Nuno Costa Santos relembra os sótãos. O quanto eu gostava de ter um. Um refúgio para fugir para ler, ouvir música, pintar, pensar, dormir… um pequeno recanto cheio de coisas minhas e ser eu. No entanto, para quem não um sótão nada como primar pela arte de constituir um sótão dentro de casa. E nisso, eu e a minha cara metade somos exímios.

“Sou pelo tráfico cultural proporcionado pela amizade.” Será com certeza a forma de combater estado de emergência cultural.

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