“Verão sem homens” de Siri Hustvedt

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A pergunta pertinente após este primeiro contacto com a obra de Siri Hustvedt é: como foi possível não ter lido nada desta autora até hoje? E já agora: onde está a divulgação literária de livros brilhantes como este? Onde estão as trombetas do “marketing” sempre tão ansiosas por tocar no seu afã em impingir romancezecos de duvidosos e esconsos atributos literários, quase todos destinados ao público feminino?
Pertencer a esta Roda dos Livros é realmente fantástico e têm sido muitos os livros e os autores excelentes que tenho descoberto ao longo destes pouco mais de dois anos. E foi assim que ouvi falar, pela primeira vez, deste livro e de Siri Hustvedt, através de uma sugestão de leitura da Márcia Balsas. Muito obrigada, Márcia!
Se ainda estiverem a ler este artigo, provavelmente perguntar-se-ão: sim, sim, isso está tudo muito bem, mas o que afinal tem de especial este “Verão sem homens”?

Imaginem uma civilização alienígena que nos visita e que procura perceber a forma de vida (relativamente) autoconsciente e bípede que aparentemente domina a superfície da Terra, mais concretamente naquele cantinho do planeta designado por “mundo ocidental” ou “mundo desenvolvido”. Pois bem, este romance seria um bom ponto de partida por constituir uma espécie de mapa ou de percurso acerca das várias fases da vida de um ser humano, com um enfâse especial no ponto de vista feminino. Contudo, também se vislumbram muitas pistas sobre o sexo masculino neste livro, quase todas indirectas, partindo das mulheres que aqui habitam, mas não só. As protagonistas deste livro constituem, pois, um roteiro genial desde a infância, 3-4 anos de idade, à sábia e, mais ou menos, lúcida velhice, passando pelo conturbado começo da adolescência, pelas vicissitudes do início da idade adulta e pelas agruras da chamada “crise da meia-idade”. As histórias destas mulheres e raparigas vão-se progressivamente entrelaçando de modo a formar uma tela literária deslumbrante nos seus tons e meio tons representativos da vasta paleta das emoções humanas. É um livro sobre mulheres, homens e relações humanas; sobre o significado da sanidade e da loucura, sobre a frágil linha delimitadora entre ambas; sobre o amor e a compaixão; sobre a crueldade, a maldade, o egoísmo. E acima de tudo, brilhantemente imaginado e escrito.
Depois de tudo isto, escusado será dizer, se ainda não leram “Verão sem homens”, procurem-no. E depois vejam por si mesmos, se toda esta minha algaraviada faz, ou não, algum sentido.

Excertos:
“Despidos de intimidade e vistos de uma distância considerável, todos nós somos personagens cómicas, bufões ridículos que andamos aos tropeções pela vida, fazendo disparates atrás de disparates atrás de disparates à medida que avançamos, mas quando nos aproximamos, o ridículo depressa se funde no sórdido ou o trágico, ou no meramente triste.”

“O clube de leitura é popular. Tem alastrado, como os proverbiais cogumelos, por todo o lado, e é uma forma cultural dominada quase inteiramente por mulheres. Na realidade, ler ficção é nos tempos que correm, uma actividade feminina. Muitas mulheres lêem ficção. A maior parte dos homens não. Se um homem pega num romance, gosta de ler um nome masculino na capa; é de algum modo tranquilizador. Nunca se sabe o que pode acontecer aos órgãos genitais externos de quem se deixa envolver em enredos imaginários inventados por alguém que tem o material no interior.”

“Excepto por preconceito, não há nas artes sentimento que não possa ser expressado nem história que não possa ser contada. O encantamento está no sentir e no contar e mais nada.”

“Devemos todos permitir-nos, de vez em quando, a fantasia da projecção, a possibilidade de nos vestirmos com os imaginários vestidos de noite e as casacas do que nunca foi e nunca será. É o que dá brilho às nossas vidas baças, e por vezes podemos escolher um sonho em vez de outro, e na escolha encontrar uma trégua da tristeza quotidiana. Ao fim ao cabo, nunca conseguiremos, nenhum de nós conseguirá, deslindar o emaranhado de ficções que constitui essa coisa periclitante a que chamamos um eu.”

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2 pensamentos sobre ““Verão sem homens” de Siri Hustvedt

  1. Ora essa Renata, não é preciso agradecer. Eu também gostei muito deste livro. Quanto à divulgação fiz a minha parte, quando o livro foi editado cá, tocando a minha piquena trombeta! 🙂 Os leitores merecem bons livros. Mas este livro é daqueles que merece bons leitores. Pode (e deve) continuar a rodar. E já agora, grande texto Renata!

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