Dentro do Segredo – José Luís Peixoto

9789897220609Um livro que é um duplo prazer – descobrir um país-mistério, escondido, reservado e totalmente distinto do que conhecemos e acreditamos e ler palavras genialmente escolhidas pelo José Luís Peixoto.

Se à partida os livros de viagem não me cativavam, este “Dentro do Segredo” sussurrou-me histórias aparentemente banais que me despertaram a vontade de ler mais outros passeios e aventuras do autor por este mundo fora.

Sobre o conteúdo global, é algo que já se espera devido às informações que chegam, sumárias, sobre a Coreia do Norte. Todavia, os pormenores e as situações vividas e relatadas nos quinze dias desta viagem conseguem ilustrar com detalhes únicos alguns contextos actuais. O autor apresenta locais e traça o perfil de um povo aparentemente humilde, ordeiro, sereno e devoto aos seus líderes. Esta devoção é descrita de um modo tão intenso que se torna chocante por quase perder o individual em detrimento do todo, da massa obediente. O mais perturbador penso que seja a falta de individualidade de cada personagem norte-coreana que cruza a narrativa. Ou pelo menos, é a imagem com que se fica do que é possível apresentar, o que desejam mostrar ao resto do mundo.

… Bem, concluindo, leiam o livro!!! É mesmo muito bom!!!

“Quase me sinto capaz de jurar que houve silêncio absoluto no momento em que entrei em Pyongyang (…) Em silêncio, silêncio as crianças com uniforme de pioneiros, calças ou saias azuis, camisa branca, lenço vermelho atado sobre o colarinho, a correrem. Homens, fardados ou não, a olharem para algum assunto, a pensarem em algum assunto. Mulheres atarefadas, a carregarem sacos (…) E o silêncio dos prédios das fachadas geométricas e cores tristes. Azul-cinzento, verde-cinzento, castanho-cinzento. E grandes letreiros de betão com frases altas, letras brancas sobre fundo vermelho, a dizerem algo com muita força (…) E a ausência de qualquer publicidade (…) Apenas as ruas limpas, a limpeza absoluta. Silêncio.”

“Sem sorrir, com ar sério, a Menina Kim disse que estava bom tempo porque se aproximava o aniversário do grande líder. As nuvens eram manchas ténues e raras. O céu tinha infinto, e essas poucas nuvens, sobre ele, eram como o reflexo de folhas novas a flutuarem num lago, davam forma ao azul. O sol, brando, tinha a medida certa de brilho para receber as vozes das crianças que passavam a brincar. O grande líder sabia fazer um bonito dia de Primavera.”

“Na Livraria de Línguas Estrangeiras, a grande maioria dos livros à venda eram as obras completas de Kim Il-sung e de Kim Jong-il traduzidas em várias línguas ou obras sobre eles também em várias línguas.”

“O Museu das Atrocidades Americanas tinha dezasseis salas. Começámos por aquela em que se explicava como a Coreia do Norte tinha sido provocada pelos americanos. A partir daí, a guia do museu começou a descrever-nos histórias de horror.”

“Era raro encontrar bolachas à venda que estivessem dentro do prazo de validade. Entre os pacotes que vi, o recorde pertencia a um prazo que tinha sido ultrapassado havia cinco anos, quase seis. Ainda assim, o mais comum era o prazo ter cerca de um ano, mais ou menos mês.”

“A entrada da cooperativa estava rodeada por muros brancos (…) Todas aquelas casas tinham sido construídas havia cinco anos. Oitenta e dois metros quadrados cada uma. Aquela era habitada por quatro pessoas, os pais e dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Os momentos mais significativos das suas vidas estavam reunidos num quadro coberto de fotografias e afixado numa parede. Os pais a casarem-se, os filhos ainda crianças, a crescerem, os pais em pose de trabalho e, por fim, o filho no exército e a família à sua volta, com orgulho nítido. Apesar destes detalhes tão pessoais, a casa não parecia habitada (…) Os pais dormiam no quarto, cuja única decoração eram três calendários de parede, um com Kim Il-sung, outro com Kim Jong-il, outro com Kim Jong-suk, a mãe de Kim Jong-il. Na sala, claro, havia uma parede inteira apenas com dois retratos dos líderes. Essa era, aliás, uma marca conhecida de todas as casas norte-coreanas: todas tinham uma parede com retratos dos líderes, que não deveria ter qualquer outra espécie de decoração.”

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