Este é o meu corpo, de Filipa Melo : Opinião

É pela mão de José Riço Direitinho que sou puxada para dentro de “este é o meu corpo”..

“Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam. Os livros nem tanto. O da Filipa, é. Mas esses são também os livros que vão ficando.

Há livros que nos tocam na pele, que conhecem os nossos sentimentos de todos os dias, a irritação, a nossa alegria , a ingenuidade dos medos, a fortaleza fraca das paixões; e há outros que que nos entram logo direitos ao centro, dissecando-nos primeiro com um olho macroscópico que corre através de nós, da nossa pele, e depois dão-nos a visão microscópica da alma. Este é o meu corpo, é assim.”

José Rico Direitinho, in revista Ler, Dezembro de 2001

Um romance em jeito de policial onde várias vozes apelam para serem ouvidas. No entanto, todas serão arrancadas à força, rasgando a pele, levando até ao osso o sentimento, a posse, a vingança, a paixão, a vida e claro, a morte!

Numa narrativa que acumula tensão e o faz de forma bastante visual, Filipa Melo consegue muitas vezes arrepiar o leitor. Estranho dizer, mas o enredo vicia-nos na vida que escapa do corpo, no corpo violado, morto, retraçado, perfurado… numa busca minuciosa pela verdade.

Nas suas várias vozes, os narradores trazem à luz desta narrativa, os vícios triviais e os vínculos próprios de corpos com vida, que se cruzam nas descrições quase, eu disse quase, mórbidas e sórdidas. Têm nesses momentos equilibrados, mas intensos, detalhes vívidos da morte e da análise do corpo como paixão, como dedicação que alimenta o vazio dos dias. Os dias vivos de muitos vivos, mais mortos que os mortos.

Onde existiu esperança, há agora dor. Onde já correu vida, corre agora horror. A melodia fria e metálica com que dissecava e inspeccionava um corpo assume agora outros contornes, mais intensos, mais profundos. Exploram-se segredos, interrogando as incertezas dos vivos, os medos que acorrentam a falsas seguranças… a ingenuidade sobre a fragilidade do corpo e da alma.

Um enredo intrincado que se vai adivinhando nas histórias que se cruzam, que se completam, nas personagens que acabam onde outras começam.

Poder-se-à dizer que estamos perante um romance com o corpo, com a alma e as dúvidas que nos atormentam, mas também estamos perante o descortinar do corpo pela tenebrosa experiência de desumanizar o que resto no fim de tudo, o corpo e a sua autópsia.

“Alguém me disse uma vez que a morte é um parto de si mesmo. Uma consumação, uma onda que nos varre até ao cabo de nós mesmos, ao fundo da nossa história, ali onde encerrámos os mistérios. Se não formos nós a cumprir a tarefa, encarregam-se os outros dela. Não há como fugir.”

Não há mesmo como fugir de um livro de tamanha qualidade, recheado de tanta informação e que apela tanto à nossa reflexão.

*

Lido na edição da Sudoeste Editora, 1ª edição de Março de 2007.

Requisitado na Fábrica das Palavras – Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira

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