À espera de Godot – Samuel Beckett

9789727950089Para quem, como eu, gosta de ler (ou à partida tem curiosidade) por praticamente tudo a que consiga deitar as mãos (no domínio da escrita criativa), tem de haver um dia em que se pega neste livro e se começa a ler. Até pode ficar a meio ou não passar das primeiras páginas mas tem de se ler para se saber o que é. Porque deve haver muito quem fale do livro e nunca o tenha lido.

A meu ver, este é apenas um texto para ser encenado, com a particularidade de ter sido o primeiro e não ter sido escrito na língua-mãe do autor (Beckett era irlandês mas estudou francês e foi professor em Paris, cidade onde acabou por morrer).

Falar (ou escrever) noutra língua pode ser libertador, pois tudo o que nos é demasiado familiar e complica o discurso (ou seja, o lixo linguístico) desaparece, oferecendo-se-nos a clarividência dum discurso puro, sem artifícios.

Assim é também esta peça, despida de tudo o que não seja o palco, os actores e um ou outro apontamento cénico. Afinal, “no princípio era o verbo” e aqui percebe-se bem o jogo de palavras do autor, que só chega ao seu verdadeiro propósito na encenação. Daí achar que esta “tragicomédia em dois actos” – nesta edição, traduzida por José Maria Vieira Mendes, ele próprio uma referência actual das artes cénicas, a partir da versão em inglês traduzida pelo próprio Beckett – tem andado por aí, nas bocas do mundo (pelo menos nas que eu tenho ouvido falar), como se fosse “um rato parido por uma montanha”.

No fundo, a minha reserva em relação a “à espera de Godot” – ou àquilo em que transformaram “à espera de Godot” – prende-se com um facto simples, extensível ao teatro em geral: quando este se torna, não numa representação do real, mas numa representação do representável – como quem conta uma história em segunda mão, alterando os ‘factos’ a seu bel-prazer, consoante o receptor… Se calhar depende das pessoas, mas eu nunca consegui estar muito tempo a ver outrem brincar ou jogar, sem me aborrecer, ter vontade de entrar na brincadeira ou simplesmente ir-me embora.

E ler uma peça inteira – tenho de confessar que nunca vi uma representação – sobre a espera, e os diversos fait divers que acontecem entretanto…

Talvez seja a eterna questão emotividade versus técnica: um amador, não tendo técnica, recorre às emoções – ainda que falsas, exageradas – para conseguir uma performance visceral; um profissional, não tendo ingenuidade, recorre à técnica e transforma o que poderia ser uma obra de arte, maior que a vida, em algo rotineiro, um exercício quase. É inevitável. Será?

Resumidamente, que a maioria das pessoas que lê este blogue deve ter preferência por livros ‘normais’ (ficção sim mas romance ou contos): talvez seja ignorância minha, ou sinal dos tempos, mas estava à espera de ser deslumbrado e fiquei apenas desiludido.

Não obstante, recomenda-se, pelos motivos mencionados atrás.

Na contracapa:

« Samuel Beckett nasce em 1906 em Foxrock, perto de Dublin. De família burguesa e protestante, estudou francês e italiano no Trinity Coilege de Dublin, foi professor em Paris, conheceu Joyce, regressou à Irlanda em 1931, passou por Londres e pela Alemanha, voltou a Paris quando rebentou a guerra, fez parte da Resistência.

É no pós-guerra que vive o período mais intenso da sua produção literária, com a escrita, em francês, das peças à Espera de Godot e Fim de Partida, além de uma trilogia de romances. Começa a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever também nesta língua. Constrói uma obra dupla, bilingue, cada vez mais depurada. Recebe o Nobel em 1969, distribuindo o dinheiro pelos amigos. Morre em Paris em 1989.

À Espera de Godot, a sua primeira peça e a mais conhecida, foi estreada a 5 de Janeiro de 1953, no Théâtre de Babylone, com encenação de Roger Blin. Em Portugal estreou em 1959, no Teatro da Trindade pelo Teatro Nacional Popular numa encenação de Francisco Ribeiro. »

Nas badanas:

« VLADIMIR Vamos esperar para ver o que é que ele diz.

ESTRAGON Quem?

VLADIMIR O Godot.

ESTRAGON Boa ideia.

VLADIMIR Vamos esperar para saber exactamente em que pé estamos.

ESTRAGON Por outro lado talvez não fosse mau malhar o ferro enquanto está quente.

VLADIMIR Estou com curiosidade para saber o que ele tem para nos oferecer. Depois, ou pegamos ou largamos.

ESTRAGON O que é que nós lhe pedimos exactamente?

VLADIMIR Não estavas lá?

ESTRAGON Não devia estar a ouvir.

VLADIMIR Oh… nada de concreto.

ESTRAGON Uma espécie de oração.

VLADIMIR Precisamente.

ESTRAGON Uma súplica vaga.

VLADIMIR Exactamente.

ESTRAGON E o que é que ele disse?

VLADIMIR Que logo via.

ESTRAGON Que não prometia nada.

VLADIMIR Que tinha de pensar no assunto.

ESTRAGON No sossego da sua casa.

VLADIMIR Consultar a sua família.

ESTRAGON Os amigos.

VLADIMIR Os agentes.

ESTRAGON Os correspondentes.

VLADIMIR Os livros.

ESTRAGON A conta bancária.

VLADIMIR Antes de tomar uma decisão.

ESTRAGON É o procedimento habitual.

VLADIMIR É, não é?

ESTRAGON Acho que sim.

VLADIMIR Eu também.

Silêncio. »

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4 pensamentos sobre “À espera de Godot – Samuel Beckett

  1. Obrigado Márcia! Devia era publicar mais, tenho pelo menos… sete comentários por publicar. Não sei se é questão de tempo, de organização ou de, como diz um amigo meu, eu ser um bocado ludita.

  2. Não li, apenas vi, faz anos, essa peça e numa interpretação que considerei bastante boa, não sei se muito técnica nem muito bem adaptada, pois como te disse não li o livro/peça.
    Confiando assim, na adaptação e encenação daquilo que vi, Godot, é “aquilo” ou “aquele” que virá conferir salvação, ou não. virá dar sentido, ou não!? É algo. Esperar por esperar, como esperança num amanhã melhor. Os personagens serão a metáfora para os 2 lados da sociedade, uns por vezes mais pessimistas e outros por sinal, mais optimistas, mas nada, por vezes, que não mude de lado.
    Na altura quando vi, até os achei, a ambos, meio palhaços, como se a sociedade inteira fosse ali representada como algo meio maltrapilho e estupidamente crente em algo que está para vir, mas não se sabe o quê.
    Ainda assim, julgo que a mensagem de Beckett encerá um sem número de interpretações e manter-se-à actual perante os tempos de hoje.
    É uma peça que gostava de “revisitar”
    *
    Quanto ao teu ludismo… às vezes tb é só o que me apetece.

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