“Rashōmon” de Ryūnosuke Akutagawa

 

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Akutagawa

Acabar de ler um livro e saber que a sua primeira leitura não será, com certeza, a última. Ainda antes disso, querer abrandar a velocidade com que os olhos percorriam as linhas e as folhas numa tentativa fútil de adiar a chegada à última página. Espanto, assombro, encantamento, perplexidade e inquietação. Pelo meio, ternura, compaixão, lealdade, amor e também arrogância, traição, violência. Aqui e ali, um sorriso que espreita; luz e escuridão; Nós.
Desassossegou-me esta colectânea de contos do inquieto Akutagawa, um dos nomes maiores da literatura japonesa do século XX. A escrita de Ryūnosuke Akutagawa (1892-1927) é bela mas não excessiva, sensível e imaginativa, por vezes, inesperada e surreal, sempre lúcida e inteligente. Licenciado em Literatura Inglesa, leitor ávido e profundo conhecedor tanto da tradição literária da sua pátria, quanto dos grandes autores ocidentais conhecidos à  época, Akutagawa foi uma pessoa ansiosa e frágil, atormentada com o peso das  responsabilidades familiares e também com o medo de, tal como aconteceu à sua mãe, enlouquecer.
Este volume reúne 18 textos, bastante diferentes entre si, e constitui um percurso muito interessante através de alguns períodos da História do Japão; desde o período Heian (794-1185) até ao início do século XX com a progressiva industrialização e “ocidentalização”, passando pelo contacto com o Cristianismo no começo do período Edo (1600-1868), a época do domínio dos Xoguns Tokugawa. As contradições inerentes à condição humana, bem como aquelas decorrentes das várias situações sociais e políticas do país ao longo dos tempos, são brilhantemente apresentadas, formando um retrato acutilante e, por vezes, algo irónico. Esta ironia é bem patente nos textos autobiográficos, escritos na fase final da sua vida, reunidos sob a designação de “A vida de um homem estúpido” e onde é possível sentir o peso enorme da profunda depressão em que o autor se encontrava imerso. Haveria muitíssimo mais a dizer pois cada um destes contos/textos daria um bom ponto de partida para várias discussões interessantes, mas, no curto espaço de um artigo de blog, é impossível fazer a devida justiça à genialidade de Akutagawa. Assim, menciono apenas alguns aspectos que me agradaram particularmente: as referências à natureza existente no meio das cidades, as dificuldades de ofício de um aspirante a escritor a quem apenas pedem a escrita de elogios fúnebres, a paixão profunda pelos livros e pela leitura do protagonista de “Daidoji Shinsuke: os primeiros anos” e a denúncia da imbecilidade cruel e desumana da guerra.

Definitivamente, um livro a ler e reler.

Excertos:

“ As ruas de Honjo poderiam ter deixado a desejar quanto à natureza, mas ervas florescentes nos telhados e nuvens primaveris reflectidas em poças exibiam um tipo de beleza doce e triste. Foi graças a coisas assim tão belas que ele acabou por amar a natureza. É óbvio que as ruas de Honjo não foram as únicas coisas que lhe abriram gradualmente os olhos para a beleza natural. Os livros também, claro – A Natureza e o Homem de Roka, que ele devorou mais de uma vez nos seus anos de escola primária e uma traduçãoo japonesa de As Belezas da Natureza, de Lubbock -, os livros iluminaram-no. Mesmo assim, aquilo que mais lhe abriu os olhos para a natureza foram os arredores de Honjo – as suas casas, as suas árvores e as suas ruas estranhamente gastas.”

“Yasukichi tinha perdido todo o interesse na composição de elogios fúnebres, mas agora tornara-se Horikawa Yasukichi, Cangalheiro Literário e Coveiro do Espírito, com ordens para trazer as lanternas cerimoniais e as flores artificiais no momento certo, no dia certo do mês certo.”

“Uma borboleta bateu as asas num vento que cheirava densamente a algas. Os seus lábios secos sentiram o toque da borboleta no mais breve instante, no entanto o rasto do pó da asa continuou a brilhar nos seus lábios durante anos.”

Sinopse: Um dos escritores mais importantes da literatura japonesa finalmente traduzido e editado em Portugal. As suas histórias, de leitura obrigatória nas escolas japonesas, influenciaram gerações de escritores, como Haruki Murakami, e inspiraram filmes de culto, a exemplo do famoso filme de Akira Kurosowa: «Rashomon — às portas do Inferno». O presente volume colige as 18 mais significativas histórias deste autor em quatro períodos da história do Japão, servindo igualmente de guia ao leitor numa viagem fascinante pela história do país e da sua cultura: do Japão medieval, habitado por xoguns, camponeses e missionários cristãos portugueses até à sociedade moderna de início do século XX, que vive as consequências da guerra contra a China e a Rússia e a pré-euforia imperialista. Ryunosuke Akutagawa foi um dos primeiros estilistas literários da literatura japonesa. A destreza com que consegue, através de pura força de estilo, trazer o mundo clássico e o fantástico da lenda medieval para a era moderna é algo de verdadeiramente arrebatador.

 

 

 

 

 

 

 

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