A Mulher Má, de Marc Pastor – Opinião

Decorria o ano de 1911 e a época natalícia era assombrada pela mulher má, de seu nome Enriqueta Marti, para muitos uma vampira, para outros uma traficante de crianças, para todos uma prostituta e uma mulher de muitos truques… mas o que muitos não sabiam é que ela era realmente um monstro!

Marc Pastor traz-nos, no seu aclamado policial, a história verídica de Enriqueta Marti, aquela que assombrou Barcelona do início do século XX como a traficante de crianças. Apimentou os factos e apoquentou alguns leitores com descrições mais tenebrosas que me relembram alguns relatos de A traficante de crianças de Gabrielle Wittkop.

“Barcelona tão depressa ama como esquece, odeia como adormece, e aquilo que hoje é um pânico insuportável, amanhã derreter-se-á como um torrão de açúcar molhado nas páginas dos jornais.” (pp.213)

Mas não para Moisés Corvo! O inspector não esquece e não lida bem com as vontades dos seus superiores que pedem para que largue, esqueça e siga para outras investigações.

“Moisés Corvo é um cão: ninguém mija no seu território. (…) Há já algum tempo que Moisés Corvo deixou de ser um policia novato (…) para se converter no perdigueiro que agora é.
Já não é defensor das boas pessoas, porque já não acredita nas boas pessoas.
(…) Corvo é um cão velho, mal encarado e cheio de vícios, mas não está disposto a ceder as ruas a ninguém.” (pp.48)

A sensibilidade de Corvo é distante da nossa quando confrontados com certas passagens. Pastor é detalhado, mas não em demasiado, já que deixa muito nas entre linhas e nas suposições que somos levados a ter sobre que episódios de tortura teria Enriqueta (e não só) com as crianças raptadas. A acção decorre sempre alimentando o clímax narrativo e como que mentalizando o leitor para o horror final. Aliás as descrições são mais negras e a análise a uma realidade mais nefasta e podre de um início de século cheio de avanços, mas pejado de doenças, de flagelos sociais, de mortes… de um fosso social enorme, onde a fronteira é violenta e não poupa quem a pretende ultrapassar.

“Há quem viva com gosto em tempos convulsos, com sangue nas ruas, porque isso lhe permite andar entre a violência e beber-lhe o prazer. Na Rosa de Foc cada um pensa em si: uns tentam arranjar comida para levar à boca, outros enchem os bolsos e fazem ostentação disso; pedintes que dormem numa taberna porque não têm uma reles cama onde cair mortos, ricos que viajam até San Sebatian para tomarem banho medicinal na praia; há quem não fale com ninguém com medo de que descubram o seu segredo, há quem diga tudo procurando companhia.” (pp.68)

É neste clima convulso que muitos temem o vampirismo, mas muito outros vampirizam, chupando o sangue, encontrando nele a vitalidade que lhes foge do corpo aos poucos e no final fará falhar o discernimento e não temer o perigo da descoberta.

No seu todo, A Mulher Má de Marc Pastor é um policial com um cunho histórico e com explicações que tendem ao fantástico, mas sem nunca esquecer que se baseia num caso verídico e por isso, talvez, suavize as descrições e implicações de Enriqueta em mais e piores episódios dos seus crimes. Há também várias referências a reter, que nomeiam outros detectives da literatura, outros autores, como os policiais de Edgar Allan Poe ou Robert Louis Stevenson ou até dados históricos sobre Espanha que são curiosidades interessantes. Não esquecendo certa terminologia e as referências a Bram Stocker, que muito me agrada.

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