Terra de Milagres – João Felgar

terrademilagresAmplamente comentado nas sessões da Roda dos Livros, e mesmo tendo sido revelados detalhes cruciais da trama, quis averiguar se “Terra de Milagres” seria merecedor de tão rasgados elogios por parte das minhas amigas Rodistas.

Quando assim é facilmente uma leitura nos desaponta, por, inevitavelmente, elevar demasiado as expectativas. Para minha grande surpresa o livro é, de facto, qualquer coisa de diferente, intenso e envolvente, que obriga a uma leitura constante sem desvios de atenção para outros livros, coisa que faço amiúde.

Uma primeira obra que apresenta um autor com estilo próprio. Uma escrita interessante, corrida e fluida que, não sendo excepcional, cumpre o principal propósito da obra, que é, a meu ver, contar uma história. E foi para saber mais, para descobrir segredos que me foram dados às peças que prossegui a leitura. A acção não é linear, os constantes saltos temporais são indiferentes à tortura do leitor, sedento de saber e, acima de tudo perceber o que aconteceu em determinada(s) altura(s) para justificar o sucedido noutra(s).

Uma estrutura perigosa, que poderia resultar num livro confuso, mas que por ser bem pensada e estar bem construída, cria um ambiente de constante suspense, adensa o interesse e acelera a leitura até ao final. Durante esta corrida a minha imaginação criou os mais diversos cenários, joguei hipóteses como quem joga cartas na mesa e gostei do exercício criativo que esta história, já de si original, me permitiu viver.

“Terra de Milagres” é um livro feminino, sobre a natureza da mulher, sobre as suas diversas facetas e sobre o seu poder. Mulheres determinadas em atingir os seus objectivos, mulheres observadoras, mulheres simples, mulheres complicadas, mulheres sábias, mulheres sensuais, mulheres que dominam os homens mesmo quando lhes são submissas, mulheres malvadas e conspirativas. Várias personagens mulheres, cada uma representando um perfil de feminilidade que compõe, na verdade, características mais ou menos presentes em todas as mulheres. Um livro visionário sobre o universo feminino, por vezes extremista, por vezes doce, sempre verosímil apesar de alguma ficção milagreira. Sobre o poder, as formas subtis e óbvias de o exercer, desde o terror à mentira, o grande poder do medo e do isolamento.

Um livro que faz pensar. Sendo sobre mulheres é curiosamente escrito por um homem, decerto muito bem informado e sem dúvida um observador atento do universo feminino, um ouvinte das suas conversas, um espião de pensamentos, um homem inteligente que descobriu um filão de material ilimitado para escrever um livro excelente. Caro João Felgar, é continuar.

A estragar a coisa, o que é uma pena, há um erro de revisão grave e irritante. A partir de certa altura uma das personagens muda de nome. Constante passa a Clemente a partir da página 178. Temos também a Elvirinha que na página 221 se transforma em Esmeraldinha. E depois há o “coro cabeludo”, que não seria tão grave se não estivesse já arreliada com o Constante /Clemente.

Tudo se pode remediar e rectificar numa próxima edição, que espero que exista, pois é mais do que merecida. Recomendo.

“E observou a condição humana a partir da sua sala de costura, conheceu os princípios e as leis que regiam a convivência entre homens e mulheres, ao ponto de concluir que o futuro de cada um nada tinha de incerto, que o amor mais não era do que uma fina máscara com que se cobrem os instintos, e que as sociedades se moviam à custa do medo: “Quem souber controlar o seu e conseguir manter o dos outros num estado latente, adquire o poder no seu estado mais puro.” (…) “Entre as mulheres era assim: até a gentileza trazia por trás uma ferroada, a amizade é o mais volátil dos sentimentos, sendo capaz de revelar as surpresas mais desagradáveis; pelo sim pelo não, mantêm-se as necessárias distâncias de segurança.” (Pág. 60).

Sinopse

“Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.
Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.
A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.
Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.”

Clube do Autor, 2014

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