Os dias de Davanzati – Opinião

Com o título original “Basura” ou lixo, este romance meio puzzle, meio manta de retalhos, faz do livro de Faciolince uma colecção de rascunhos que bem poderia dar origem a um outro título, como encontramos no próprio livro, quando a certa parte há a referência a “O anotador de incoerências”, o que a mim que pareceu brilhante.

Davanzati, vizinho e anteriormente escritor, confunde-se muitas vezes com o narrador, por vezes jornalista, mas maioritariamente solitário e pesquisador na vida alheia… não sei se me faço entender.

Basicamente o narrador, combatendo a sua própria solidão, ocupa os seus tempos com o tempo morto de um vizinho.

Mas, teremos algum de nós, um vizinho tão peculiar e interessante que nos leve a intrometer na sua vida e mais ainda no seu lixo!? E se descobríssemos que outrora foi um alguém de renome?!?

«eu sei perfeitamente que, quando um escritor se desprende de algum papel, não o faz para alguém o resgatar ou ler a seguir, pelo contrário, fá-lo para que ninguém, jamais, o leia»

Este livro é uma matrioska, de palavras, de textos, de sensações e de vidas, todas dentro da mesma. É um livro com pedaços de outros livros, rascunhos, esboços, tentativas de romances, contos… enredos inacabados… outros porém, mais valia não terem sido terminados, tal é a divagação e falta de nexo.

A estrutura é realmente viciante, bem como a própria intromissão e quase espionagem nos hábitos de vida alheia. Somos presos a essa expiação e esperamos ansiosamente para saber mais da vida do outro. A mim conquistou-me por completo com as primeiras passagens, os primeiros “roubos” do lixo alheio e a dúvida que tal levanta.

“De quem é o lixo? Tem dono, o lixo? Deitar uma coisa fora é o mesmo que oferecê-la? Fazia a mim próprio estas perguntas numa tentativa de me justificar.”

O livro levanta muitas outras questões intemporais e existenciais e tem passagens brilhantes.

“(…) não emito nenhum pedido de auxílio, não pretendo que ninguém me socorra, não tenho fome de olhos que me salvem e me leiam, sou, simplesmente, um náufrago, e relato a mim mesmo que morro de sede enquanto morro de sede.”

Há um constante tom de derrota e de anúncio do fim de vida, mas ao mesmo tempo há todo um resgate que dá esperança. É como se o tom de coscuvilhice que o narrador lança, fosse, até certo ponto, uma esperança de salvação para Dazanvati, no entanto, o fim aproxima-se e vislumbramos mais, constatamos que a mera observação e intromissão não nos revelam dados suficientes para conhecermos e avaliarmos… julgarmos o outro e aí há todo mudar de rumo, que traz um novo olhar ao romance.

“Ter-lhe-ia dito, talvez, que a prosa reflexiva dele possuía, por vezes, uma cândida angústia que me agradava, e ter-lhe-ia pedido que desistisse de uma vez por todas de contar histórias, e já que era completamente incapaz de inventar enredos imaginários, que se dedicasse a pensar e a glosar a sua própria vida.”

Julgo que a mensagem que o livro passa é superior à peculiar estrutura do enredo e do próprio livro organizado dentro de rascunhos de potenciais outros livros. Enfim, vidas dentro de vidas, que se enredam, que se assemelham… a vida como ela é. Até com os devaneios e loucuras que todos temos e por vezes tentamos esconder.

Confesso que as divagações iniciais foram o primeiro traço de beleza que me conquistou e me prendeu ao livro. Diria que no seu todo é excelente, mas não o acho, pois a meio, parece-me que o autor claudicou um pouco, exagerando a divagação do próprio Davazanti, ainda assim, entre as páginas 158 e 164 está um conto dentro de outro conto com um livro também lá metido que é delicioso.

Há uma frase, mesmo na recta final, que transcrita aqui, quebraria parte do feitiço do livro, mas que revela toda a essência do que Faciolince aqui traz para ao leitor.

Um livro a ler, sem dúvida.

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Um pensamento sobre “Os dias de Davanzati – Opinião

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