Maximiliano, o bandido que queria publicar um livro – Opinião

Não é o verdadeiro título do livro, mas podia ter sido. “Golpe de sorte” não lhe assentava bem e a “A verdadeira história do bandido Maximiliano”, coloca demasiado ênfase na palavra verdade e isso dá muito que pensar.

Jacinto Rego de Almeida, junta bandidos perigosos e peculiares, uma beldade de origem mais a leste e de profissão (e influência) duvidosa, um manuscrito de um livro, uma editora na bancarrota, um país em crise e um cenário tropical algures na linha que separa a Bolívia do Brasil e traz até ao leitor quase 150 páginas de entretenimento e muitas piadas transversais à história deste nosso recanto à beira mar plantado.

Gosto deste género de enredos, onde os livros são povoados por outros livros e existe um olhar acutilante, crítico, mas também humorístico à realidade envolvente.

“Fez uma pausa:
– Com a idade, desisti de tentar reformar a estupidez do mundo.”

E com esta brilhante frase mal sabia eu o que aí vinha. Nas páginas seguintes não vem conformismo ou “baixar os braços”, resignando-se e aceitando a estupidez do mundo, vem sim, a luta pela igualdade e pelo direito de participar nessa mesma estupidez e como tal, fazer parte do sistema.

“Tu sabes que eu acho, nos tempos que correm, que é mais saudável uma cunha do que uma indicação por mérito. A velha cunha envolve solidariedade, amizade, sentimentos (…) O mérito, ao contrário, está ligado a uma avaliação fria (…) Eu sou apologista das cunhas, nada como uma boa cunha.”

Entre cunhas e potenciais acasos, um manuscrito enigmático e recheado de relatos de negócios obscuros e com o peculiar detalhe de ter fotos para ilustrar a trama, incorporar personagens e elucidar sobre ambientes, compõem a nova edição que a Astrolábio terá de editar. Digo terá, visto a sua edição ser fruto da coação… nada melhor para um policial.

«O opressor é um sujeito livre.»

A ficção mistura-se com a realidade e esconde-se nos meandros da narrativa para abordar temas actuais. Os nomes das personagens são do mais óbvio ao mais caricato e até a naifa é de estimação e tem nome, a Branquinha.
Neste livro não faltam crimes, sexo, drogas, prostituição, imigração clandestina, máfias organizadas e empresas fantasma e claro, política. E parece-me até uma certa comparação, assim subtilmente, entre Portugal e o Brasil.

No meio há ainda direito a uns laivos de romance, com Mário e Natasha nos papeis principais.
«O amor não é tudo mas está à frente do que vier em segundo lugar.»

Para ler de uma grande e única dentada!

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