“Aberto toda a noite” de David Trueba – Opinião

“Haverá tanta dor como prazer, tanta solidão como companhia, tantas bofetadas como beijos.” DEUS

E assim começa o enredo em torno da família Belitre e não podia ter uma citação mais correcta. Entre os Belitre existe tanto do comum de qualquer família como do alucinado de qualquer hospício, que é exactamente como muitas vezes se sente o ambiente familiar.

“Se esperares, conto-te o que nos aguarda depois da morte. Amiga, tu e eu sabemos que viver não foi nada mau, porque não haveria de ser ainda melhor o que vem depois? Agora parece-me óbvio que a morte é o estado normal e que viver é o acidente. E achas alguma razão mais justificada para morrer do que saber o que nos espera? Que não digam: morreu de cancro ou de um tumor cerebral. Digam: morreu de curiosidade.

Última carta de Ernestina Beltrán a Alma Belitre”

Excelente epitáfio: morreu de curiosidade!

São inúmeras as descrições que fazem jus a qualquer família. Seja a loucura cáustica já aceite de quem quase está senil às decisões tomadas a quente dos mais jovens e inseguros, que buscam orientação, mas também liberdade e aventura.

A família o avô Abelardo, que é um personagem que vale por todos os outros, vai sendo apresentada, um a um, pelas alegrias, mas também pelos desaires próprios de cada carácter.

“Nas famílias predomina essa virtude de admitir a extravagância quotidiana como normalidade.”

Bem dito e bem certo para todos os membros desta família. Por eles, a mansão estará sempre aberta.

“O lar é o único lugar aberto toda a noite.” A citação é de Ambrose Bierce, um jornalista e satírico contista que considerava que sinónimo de “sozinho” era estar em “má companhia”. Ao lermos que este escritor realista misturava humor negro, cinismo e um olhar acutilante à sociedade que o rodeava… é exactamente o que encontramos neste relato familiar de Trueba, olhar esse que se mantên do seu aclamado Saber Perder.

“- Avô, o que mais te disse Deus?

– Que não revele nada da nossa conversa a não-crentes e romancistas. Deus só fala a poetas e por isso a Sua voz é verso, verdade e vida. Os três vês que, para o caso de não saberes, são sinónimos.”

Faltam muitos vês nesta conversa, falta: vitalidade, virilidade, vicissitude, vulgaridade, veleidade ou ainda vontade, vibrante, vitorioso… São várias características para descrever os três vês do avô Abelardo e caracterizar os eventos familiares bem como os seus facilitadores.

O amor, em todas as suas vertentes existe em “Aberto toda a noite”, mesmo que por vezes seja ridicularizado e visto como supérfluo. Dizer mais sobre os acontecimentos desta família é retirar todo o humor de se ir divertindo a cada página. Essencialmente, este romance de Trueba é puro entretenimento para o leitor. Aliás em filme e com as expressões idiomáticas espanholas deveria ser a comédia do ano.

“Amor: A estupidez de pensar demasiado no outro antes de saber o que quer que seja sobre si próprio.”

Bierce é citado novamente e faz todo o sentido, face ao rumo que o amor ou algo que se confunde com ele, obriga as pessoas a agir, ou melhor, reagir, desesperadamente. No entanto, “O fardo que pesa sobre os ombros, não pesa menos por o deixarmos cair.” é um provérbio edetano citado perto do final e abre o caminho para pensarmos em como por vezes podemos ver ou sentir a família.

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