Cotovia de Dezsö Kosztolányi – Opinião

Cotovia de Dezsö Kosztolányi é considerada uma obra-prima da literatura húngara. Um romance pejado de realismo, num retrato de época brilhante e de enorme beleza estética. São alguns dos atributos e elogios que a crítica e o tempo têm feito a este livro de enredo simples, mas pejado de uma linguagem e uma escrita magistral. Ainda assim, é uma obra que não me cativa na sua totalidade, já que o alargamento de todo o enredo se perde em alongadas e detalhadas descrições, que farão um retrato fiel da sociedade e dos costumes da época, é certo, mas para mim, de tão distantes que estão dos meus interesses e experiências, tornam-se enfadonhos e retiram o interesse que a temática poderia ter.

Julgo que a essência deste livro está em pensarmos no peso que um familiar representa e a liberdade que reprime aos restante, mesmo que a decisão de ser esse peso não seja voluntário por parte da pessoa em causa. Por outro lado, é um livro que relata o afastamento, a falta de comunicação e de uma relação próxima, muito em parte pelos próprios costumes de época. O afastamento da filha, Cotovia, é visto como um enorme drama, ainda que se leia nas entrelinhas toda a vida que escapa das mãos destes pais e que quase por uma última vez vão ter a possibilidade de reviver.

“Quem parte é alguém que desaparece, se aniquila, já não existe. Vive exclusivamente como lembrança, que visita com frequência a nossa imaginação. Sabemos que está algures mas não o vemos, tal como os que morreram”

Perdura em todo o romance o peso de uma sociedade abrilhantada pelos modos requintados, mas os sentimentos e as relações urgem de maiores momentos, se bem que quando surgem há tanto uma forma sóbria e quase desapegada como uma forma exagerada e dramática demais.

A leitura deste romance de Dezsö Kosztolányi surgiu devido à leitura de “O Meu Irmão”, de Afonso Reis Cabral, como obre sugerida pelo próprio autor. As semelhanças são evidentes. O sentido de compromisso e sacrifício surgem de igual modo como forma de garantir a segurança, o amor e o lar que o ente querido precisa. O afastamento e o peso que causam é notório em ambos os enredos, apesar de serem gerados por situações díspares. Se por um lado pensamos em casamentos, dotes e costumes de final de século XIX, por outro pensamos em deficiência e dificuldade de inclusão total na sociedade actual.

Fica de ambos, a servidão e a escravidão (consentida!?) a que por vezes o amor obriga ou fomenta.

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