até que consigas voar – José Gameiro

atequeconsigasvoarNão sei porque hesito e protelo durante dias em expressar a minha opinião. Suponho que demoro a processar o que li.

Gostei muito de “até que o amor nos separe”. 

É sempre uma revelação encontrar um autor que passa para o papel tanto do seu saber e da sua experiência sobre o comportamento humano sem que de fição se trate, com uma simplicidade e autenticidade que satisfaz a minha curiosidade e interesse. Pequenos episódios que se lêem rapidamente em que percebemos o peso da morte, do medo, da depressão e dos conflitos conjugais que tanta angústia e dor acarretam, levando sabiamente a procurar ajuda profissional. Frequentemente, desvalorizamos e não compreendemos o sofrimento alheio. Sorri quando li:

Julgo que uma das coisas que os depressivos nos agradecem é não lhe dizermos “olhe, deixe-se de pieguices, e vá passear a gozar a vida”. Só quem nunca passou por uma depressão é que não compreende que este é o conselho mais estúpido que se pode dar a um deprimido. É quase a mesma coisa que dizer a um impotente “Você precisa é de fazer sexo…”                     (pag. 71)

Possivelmente, neste livro, alguns irão encontrar eco do seu sentir, que por temor não partilham e tentam a todo o custo lidar e ocultar, sem reconhecer que:

Nós somos uma espécie de cebola (…). As de fora correspondem aos comportamentos, as mais interiores à personalidade. Na relação com os outros podemos mudar a camada exterior, adaptar comportamentos de modo que a interação seja mais clara e calma. Mas debaixo de maior pressão, esta mudança é mais difícil e funcionam as camadas interiores da cebola.               (pag, 141)   

Um psiquiatra pode ajudar e através da terapia desatar um nó, funcionando como um acelerador do tempo de sofrimento. Nada mau para um psiquiatra com horror à imutabilidade e crença na capacidade do ser humano de resistir e superar, convicto de que as soluções estão em cada um das pessoas que o procuram e que afinal dá um conselho que o próprio seguiu.

A seguir  a um grande susto no ar do qual pensam não sair vivos, voltem a meter-se num avião e voem, voem, voem.          (pag. 178)

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