O Meu Irmão – Afonso Reis Cabral

O Meu IrmãoNão havia nada que me preparasse para o choque e a raiva que senti no fim da leitura de “O Meu Irmão”. Cheguei ao fim sem ter lido nenhuma opinião publicada, nenhum comentário a este livro, apenas assisti a alguns encolher de ombros e expressões de estranheza e mistério de quem o tinha lido.

Não estava na completa ignorância, sabia que o livro escondia algo. E assim o li, sempre à espera de descobrir não sabia eu o quê, como seria, nem quando aconteceria. Uma coisa é certa, o encanto (bom ou mau) deste livro está em não se saber ao que se vai. Quando o chão nos sai dos pés esquecemos até o nosso nome. Por isso aconselho a quem ainda não leu e tenha intenção de o fazer que fique por aqui. Guarde a leitura desta opinião para mais tarde vir cá trocar umas bolas comigo. Assunto não nos vai faltar.

Excepcionalmente, acho que é a segunda vez que faço isto, vou transcrever a sinopse primeiro.

“Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.
O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.”

Perante esta descrição eu esperava um livro sobre o Síndrome de Down. Sobre as limitações e dificuldades do irmão com esta condição, assim como a vida familiar, as adaptações forçadas, o sofrimento, etc, etc.

A verdade é que fui enganada. E fui enganada praticamente o livro todo, que quando a nossa cabeça quer ver as coisas de determinada forma, é mesmo dessa forma que as vê. Então eu estive quase trezentas páginas do livro, que tem 365, convencida que “O Meu Irmão” é o Miguel, o deficiente, o mongolóide, como tantas vezes é tratado pelo narrador. Cruel. Senti sempre, mesmo desde início, uma crueldade nas palavras, uma frieza no tratamento, nas descrições dos momentos em família, como se tivesse a ver as cenas através de um vidro gelado e as personagens fossem vazias de sentimentos.

“O Meu irmão”, para mim, é o narrador, o outro irmão “professor universitário divorciado e misantropo”. Este vai na verdade demonstrando a sua natureza ao longo de todo o livro, e que será apanhado por aqueles leitores atentos e inteligentes que não se deixam levar por sinopses politicamente corretas, e que conservam o espírito crítico. Não foi o meu caso. Fui completamente enrolada, no fim do livro consegui ver mesmo a cara do Afonso Reis Cabral a rir-se de mim. Resta-me a consolação, vá, a felicidade, de ter sido enganada em grande nível, pois que a escrita é irrepreensível. Fiquei pasma com algumas passagens perfeitas, questionei-me constantemente onde terá ido o autor desenvolver a capacidade de articular tanta beleza, por vezes, com tão poucas palavras.

“Por causa das nuvens, não existe lua para meter luz por entre as folhas e fazer desta árvore uma pequena ave-maria iluminada pela fé.” (Pág. 113)

É um Dom.

Então este irmão malvado, que me convenceu sempre de estar a ajudar o Miguel, por cuidar dele depois da morte dos pais, por mudar de casa e de cidade para manter o Miguel no seu ambiente, a frequentar o centro que sempre frequentou, é um tipo que toda a vida se deixou levar e diminuir pela inveja e pelo ciúme, que foi cultivando sentimentos de ódio e raiva em relação ao irmão, pela atenção constante que tinha dos pais e das irmãs. E lá vem ele da sua vidinha vazia, misantropo que soa melhor, para se enfiar com o Miguel numa terriola no meio de nada, depois de se deixar levar pelo descontrolo, pelos instintos mais baixos, por um certo complexo de Deus, e numa espiral de loucura, cometer um acto atroz que defende, como todos os loucos, ser o certo.

O acto em questão não revelo, não vão alguns de vocês que ainda não leram o livro estarem por aí à espreita.

Zangada, talvez mesmo furiosa, tenho a dizer coloco este livro num patamar muito elevado por me fazer sentir tantas coisas, mexer com tantos sentimentos, horrorizar-me e não me deixar indiferente. Nunca reli um livro. Mas este deixa-me uma certa vontade de, daqui a uns tempos, lhe voltar, lhe pegar de outra perspectiva. A certa. Ou a que eu agora acho que é a certa.

Brilhante!

Leya, 2014

Anúncios

3 pensamentos sobre “O Meu Irmão – Afonso Reis Cabral

  1. Li o livro.
    Voltei ao “choque”, não me chocou. Sublinho o “brilhante” para a capacidade de fazer das palavras e dos cenários um jogo inteligente.
    Temos muito que “discutir”, é possível. Não aceito o que a personagem, ou louco como lhe chamas, fez, mas era expectável. O ciúme, o sentimento de ser menor.. tudo plausível, tudo humano, ou não?
    É uma perspectiva muito interessante a deste “O Meu Irmão”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s