A Fenda, Doris Lessing :: Opinião

Chego a Doris Lessing, através da apresentação de “Amar de novo“, referido e comentado na Roda dos Livros, onde aprendo bastante, ficando igualmente atenta para novos autores, como foi o caso.
Doris Lessing é galardoada em 2007 com o Prémio Nobel da Literatura vindo assim firmar o valor das suas obras controversas e que fogem ao seu tempo, pondo em causa ideologias e religião. “A Fenda” segue esse percurso e dá um olhar feminista e de ruptura perante o papel atribuído à mulher. A critica em geral atribui-lhe enorme significado e tem uma vasta obra publicada, com mais de 70 livros. Começou a escrever a partir dos 25 e faleceu recentemente, em 2013, com 94 anos.

Sob o seu olhar feminista, “A Fenda” parte do princípio: «Foi apontada a possibilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio, à semelhança duma reflexão cósmica posterior.»
O livro abre também com a premissa: “O homem faz, a mulher é.” de Robert Graves, deixando adivinhar a declaração de poder e primazia das mulheres.

As mulheres deste (quase) romance efabulatório, são as Fendas, fêmeas que apenas dão à luz outras fêmeas por partenogénese (gestação/reprodução sem fecundação) e que, acidentalmente, sem se saber como, uma delas dá à luz um bebé diferente, um exemplar do sexo masculino, portanto, um Monstro, ou um Esguicho (por oposição a fenda)… termo que posteriormente os passa a caracterizar visto serem portadores de uma fisionomia diferente e quase que preocupante face à das fêmeas.

Numa luta entre o Bem e o Mal, coloca-se a possibilidade de eliminar tais Esguichos, revelando assim um lado mais violento e por tal, contestado. Lessing demonstra a urgência e quase o prazer daquelas mulheres em massacrarem e exporem ao abandono os bebés masculinos.

«Quando expúnhamos os nossos bebés deformados, as águias vinham buscá-los. Nós não matávamos os bebés, as águias é que os matavam.»

A repugnância, o medo, o desconhecido e o “ser diferente”, mas tão próximo e semelhante abalou e pôs em causa a inquestionável descendência das Fendas pela Fenda e o papel das mesmas na comunidade já ancestral. A separação por sexos, em lados opostos da montanha e a quase protecção por elementos diferentes da Natureza talvez queria desenhar e organizar as diferenças que separam e rivalizam homens e mulheres, no entanto, a meu ver, a acção, o enredo e até a própria linguagem deixa muito a desejar.

A sobrevivência associada ao Rochedo da Morte e à Mãe águia, salvadora dos Esguichos e a Fenda protectora e que abriga as Fendas, a divisão entre as anciãs, Velhas Elas e outras personagens como Astre, Maire ou o primeiro Ele, são personagens e cenários com os quais tive imensa dificuldade de me ligar. A própria narração da história, sempre na suposição, no carácter experimental… retira o impacto e a litologia que a autora pudesse querer dar com a obra. Vejo essas partes da narrativa como cortes, que quebra e chegam a permitir ridicularizar toda aquela nomenclatura, que a certa parte me parece forçada e descontextualizada.

Sendo assim, a minha estreia com esta autora, cuja biografia (que tenho vindo a ler aqui e ali) me parece melhor que esta obra, se bem que os entendidos, afirmem que obra e biografia se fundem e daí a fama de grande parte das obras de Doris Lessing.

Quem sabe, se me cruzar com Os Diários de Jane Somers e com O Verão Antes das Trevas, os adquira e me perca pelas personagens que se misturam na biografia da autora.

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Banda sonora (enquanto escrevi o artigo), clique na cassete 😉
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