VICTORIA, Knut Hamsun – Opinião

Como eu senti (e questionei!) “Victoria” :
A impossibilidade de amor no romance platónico e imensurável de Johannes por Victoria. E sim, digo dele, porque para mim era amor só com um sentido. Não correspondido. Um amor gozado, um amor menosprezado.
As dúvidas de Victoria, a indecisão, a divisão social, o desprezo, mas ao mesmo tempo o alimentar da amizade, da presença, da amizade… atitudes nem correctas e possível para ele de suportar.
Essencialmente, este curto romance de Hamsun é a história de um não romance, de um desamor, de um desencontro. Da fatalidade do destino reservar uma condição social em lados opostos para estes dois jovens.

Neste primeiro contacto com a escrita do Nobel norueguês do que mais sinto falta são detalhes, são construções mais densas, personagens mais fortes. Talvez erre e interprete erradamente e esteja tudo lá, nas poucas palavras, nas descrições breves, nos diálogos quase telegráficos.
Os desaparecimentos constantes, sejam de Johannes, para se refugiar na escrita ou os dela, para, ora aparecer ou desaparecer da vida dele e a pouca explicação sobre o fenómeno da educação de Johannes e de como surge escritor… não há referências à sua educação…
O amor e a escrita como processo de introspecção, de cura, de delírio, a dor de parto de um livro “nove meses de trabalho (pp.56)”… tudo isso me parece brilhante, mas realmente muito deixado à capacidade de ler nas entrelinhas, ler o que não lá está.

Por exemplo, a personagem do professor é um prenúncio do seu destino!? Até certa parte é Johannes que temos ali? E o delírio total, (páginas 113-115) – o relato do monge Vendt e o homem que se desfigura.

Porém, o que lá está é bom. Sem dúvida. É bem escrito. E mesmo que o livro não tivesse mais nada, valeria apenas por esta passagem, a qual não me inibi de transcrever na integra.

O que é o amor? (pp.31)
“Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal, que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopro e morre quando é tocada.
O amor era isso.
Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo lacre inviolável e podia arder inextinguível-mente até à hora da morte, porque era eterno. O que era então o amor?
Oh! O amor é uma noite de verão com estrelas no céu e fragrâncias na terra. Mas porque encoraja o jovem a fazer desvios e porque leva o velho a erguer-se na ponta dos pés no seu quarto solitário? Ah! Porque o amor transforma o coração do homem num jardim de cogumelos, um opulento e vistoso jardim, onde cresce o cogumelo misterioso e audaz.
Não é o amor que incita o monge a entrar de noite nas cercas dos jardins para espiar às janelas as belas adormecidas? Não é ele que enlouquece a monja e faz perder a razão à princesa? Não é ele que faz com que o rei ande com a cabeça rente ao chão, com os cabelos a varrer o pó, ao mesmo tempo que murmura palavras impudicas, ri e põe a língua de fora?
O amor era isso.
Não, não, era uma coisa muito diferente, uma coisa única. Veio à terra numa noite de Primavera, quando um jovem viu dois olhos… dois olhos. Olhou fixamente e viu.
Beijou uma boca e houve um encontro de duas luzes no seu coração, um sol que brilhou dentro de uma estrela. Caiu num abraço e não viu nem sentiu mais nada no mundo.
O amor é a primeira palavra de Deus, o primeiro pensamento que atravessou o seu espírito. Quando ordenou «Que se faça luz!», foi o amor. Tudo o que criara era muito bom e estava contente por tê-lo feito. E o amor foi a origem do mundo e o dominador do mundo, mas todos os seus caminhos estão semeados de flores e de sangue, de flores e de sangue.”

É um amor que sacode o corpo, mas não acode à alma, um coração que se sente incompleto. É a desistência face à fraca tentativa dela.
E nessa conclusão ora idílica ou (quase) nefasta que o livro é brilhante. De resto, tudo o resto está lá para fundamentar esse binómio que é o amor.

São episódios de delírio que não se distinguem da realidade. Escasseia nas poucas referências temporais. Surgem relatos que parecem ideias/cenários para o livro ou para um futuro dele e de Victoria, como se fossem chegar a velhos, juntos…

A escrita de Hamsun relata alterações pelas estações do ano que são breves mas brilhantes, que revelam uma capacidade extraordinária de dizer muito em poucas palavras, é uma capacidade de síntese que abarca um cenário enorme, natural e que engole os personagens.
Uma ligação maior à natureza.
“Existe uma espécie de amor que é muito inebriante.” E talvez o mais inebriante seja mesmo a Natureza.

Uma leitura cheia de arestas. Uma vontade de continuar a ler Hamsun, mas um certo tédio pelo lado banal e previsível destes amores tão fatais.
Fica já no final, outra aresta – A carta final de Victoria é um lamento, é um pedido de perdão por tê-lo praticamente desprezado constantemente? É a amargura de reconhecer que morreu sozinha e sem se realizar amorosamente, mas ao mesmo tempo agradece-lhe o amor que ele sempre lhe teve?!?

Outra dúvida: O pai de Victoria suicida-se depois do futuro genro morrer no (estranho) acidente de caça?!?
… Enfim, talvez o amor, assim descrito e posto de forma tão conturbada, mas simultaneamente tão simples, não seja para ser questionado, seja apenas para ser sentido.

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