“Intempérie” de Jesús Carrasco . Opinião

O livro de estreia de Jesús Carrasco está considerado como um dos melhores de 2013. Aliás arrecadou já vários prémios e a narrativa cuidada e polida de Carrasco tem sido acolhida e acarinhada pela critica.

Com um enredo cru e despojado, Carrasco cria uma intensidade na sua narrativa que seja a ser sufocante. A cadência das acções, dos diálogos, dos acontecimentos parece-nos sempre lenta, sempre reduzida, sempre diminuta e portanto, sufocante, intrigante, castigadora.
Talvez todo o cuidado com as palavras, que aparentam ter sido, milimetricamente escolhidas e consideradas, trazem peso à escrita e também à acção. É nesse polimento da linguagem que o leitor se pode perder e vaguear entre a natureza e a pureza de um cenário ancestral, rural e duro, mas nunca tão duro como a acção descrita.

Há todo um entendimento camuflado entre os dois personagens, num silêncio comprometedor, dificultando assim a aceitação por parte do leitor desta estranha relação. Pelo menos foi esse o sentimento que eu experimentei. O sentimento de estranheza. Tão depressa queria que toda aquela dor e ausência de afecto passasse, como queria que a descrição evoluí-se e perceber se alguma vez chegariam a unir-se e a aceitar-se mutuamente.

Se até agora a opinião parece estranha, a obra não menos o é! Aliás, é isso que quero transparecer. É verdade que se narram outros tempos, outra ditadura, outras limitações e condicionalismos, mas parece-me a mim que o enredo levanta alguns véus, mas deixa várias pontas soltas – serão para o leitor especular e decidir por ele?
Para quem não leu a sinopse, um rapaz, cujo o nome não sabemos, foge de casa. Vítima de maus tratos e talvez abusos, foge e pretende não mais voltar. Que o encontrem é o seu maior medo. Na fuga, na fome, na sede, no abandono, na aspereza e na aridez de um país vitimizado, este menino encontra um pastor. Um pastor porto de abrigo, dono de um silêncio profundo, de algumas cabras e conhecedor das lides do campo.
Numa amizade estranha, descrita por episódios duros e de sobrevivência, pastor e rapaz fogem ambos daquilo que os atormenta.

Confesso que senti necessidade de ir ler mais sobre o livro e o autor. Se por um lado, o que mais me cativou foi a sua escrita, foi também ela que por momentos me cansou e me fez esquecer aonde poderia o autor querer chegar ou levar-me.

“Passou a noite acocorado junto ao velho imóvel. Corria uma brisa tíbia  enfeitada com o rumor de algumas cabras nervosas. Ao homem ardia-lhe a testa e gemia em sonhos a sua dor como um salmo ininterrupto e acromático.” (pp. 103)

Há no livro toda uma luta, todo um sofrimento intrínseco à luta pela sobrevivência. No meio de tanta miséria, o autor brinda o leitor com uma escrita que pretende seduzir.
“Tento não escrever um solilóquio em que me sinto um artista. Não me interessa que as pessoas façam um esforço e entendam se quiserem. Quero que se sintam seduzidos.” Diz o autor na entrevista ao Público.

No meio de tamanha intempérie esperamos a chegada da bonança!

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