“Sono”, de Haruki Murakami, Opinião

“Há dezassete dias que não durmo.
(…)
Encontro-me no interior da minha própria sombra.”

Assim nos diz, a mulher, a protagonista deste período insólito, uma fase que ultrapassa, que já não é insónia, é algo mais, já que a insónia ela conhece bem e isto é outra coisa. Algo diferente, algo transcendente. Talvez até inovador, caso lhe permita, a ela e a nós olhar a vida com outros olhos, talvez os do delírio, da provação, da alucinação.

Como julgam que ficariam ao fim de 17 dias de privação de sono? O vosso corpo sem descanso, a vossa cabeça sempre em permanente estado de alerta… que impacto teria isso no quotidiano, na rotina familiar?!?
Em que zona sombria e tenebrosa se iriam encontrar? Já pensaram nisso?

São essas e outras questões que vão ficando em aberto ao longo deste conto, não tão breve como seria de esperar ou até como tantos outros contos. Murakami tem o dom de, mesmo tendo uma escrita simples, concreta e muito realista, nos fazer desesperar por um desfecho. Tem o dom de nos fazer perder nos delírios desta narração “sem sono”, chegando até, pelo menos a mim, aliás a nós, já que este conto foi lido a dois, e a ambos deu “sono”. Sim. Curiosamente este conto deu-nos Sono!
O que abre outra questão: haverão livros receitados propositadamente para nos dar sono? ´´E uma questão curiosa, ou não?

Os motivos que provocam tal insónia alargada são incógnitos e deixam-nos a adivinhar.
As consequências, talvez se possam considerar também incógnitas, pois por vezes achamos que a protagonista está em delírio, em divagação e a questão que fica no ar é: “isto aconteceu mesmo!?”
E a mesma pergunta repete-se aquando do desfecho e da conclusão que se retira do conto.

Julgo que a conclusão que podemos retirar, terá, em muito, a ver como a forma como encaramos a nossa própria relação com o “sono”, com a rotina, com o quotidiano e até a nossa vida familiar. Já que, desde o início, a exploração do enredo começa pela vida, rotineira e “meio sem sal” que a protagonista leva, o que nos faz pensar, se a ausência de problemas por resolver não criará uma certa inércia, uma certa vontade de complicar o que é fácil e corre bem. Não sei se me faço entender!?
É que depois de descrita a vida, rotineira, da protagonista, esta entra numa espiral muito mais dinâmica e até entusiasta quando “vive”, quase se fosse noutra realidade, nas horas em que não tendo sono, faz um alargado leque de actividades que de outra forma faria.
Ou seja, será que Murakami nos quer dizer que quando tudo no nosso corpo já se habituou a algo que não nos satisfaz (mesmo que a gente não admita!), responde com privação e desconforto, obrigando-nos a mudar!? Como que tendo um mecanismo próprio de auto regulação?

Confesso que a leitura não foi a mais prazerosa, mas o desfecho ou suposto final deixa-nos a pensar. E sabendo da duplicidade de interpretações que os escritos de Murakami têm, já era de esperar que nos levasse a pensar. E deixou, é um facto! Se o choque final e até algum enfado no decorrer da leitura, podem causar desconforto, o balanço final é inevitável e o comentário com juízos de valor e suposições é igualmente obrigatório e creio que é essa a magia daquilo que este aclamado japonês escreve.

*

Este conto foi lido na colectânea “O Elefante Evapora-se”, de 2010, mas no final do ano passado foi lançado individualmente com ilustrações de Kat Menschik. Talvez com ilustrações seja mais fácil entrar neste cenário nocturno e tenebroso. Não que as palavras e a intensidade de Murakami não o façam bem, mas quem sabe pudéssemos retirar ainda outras conclusões. Ambas as edições são da Casa das Letras, Leya.

Oiçam sobre o livro, aqui, no Livro do Dia TSF, em Dezembro de 2013.
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