“Os Transparentes”, de Ondjaki – Opinião

Em Os Transparentes, Ondjaki expõem uma Luanda, que talvez não resuma, mas caracteriza Angola, naquela globalização e capitalismo acelerados, na imposição de uma mutação acelerada.
É com base nessa realidade que o escritor conhece e sobre a qual escreve, uma realidade que estrangula a ficção e expõe a verdade. A urgência da verdade! A desconstrução moral e a urgência do capitalismo bruto que urge, que queima e que expõe uma cidade, um povo, diria eu, a uma corrupção desenfreada que não olha a meios.

“- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer… nós somos transparentes porque somos pobres.” (pág. 203)

É nesta constatação da transparência de um povo, que Ondjaki revê também os portugueses. Talvez, arrisco a dizer, também os veja com o humor que reconhece no povo angolano, na alegria de viver, no desenrascanso típico, por vezes arrojado e criativo, tanto para sobreviver como para atalhar nas dificuldades da vida. Se neste livro eu li e vi Luanda, vi também Portugal. As makas podem ser outras, a banga também, mas os vijús tendem a ter a mesma vivacidade na hora de inventar e dar corda ao mujimbo … 😉
É também nesta particularidade linguística e de contexto que o livro de Ondjaki ganha riqueza e promove aprendizagem. Há uma certa vivência que se experimenta lendo assim estes diálogos, que tendem a arrancar de nós uma certa teatralidade e interpretação, fazendo-nos rir e experienciar o livro.

“(…) desorientado por vocação, acordava cedo para ter mais tempo de não fazer nada.” (pág.25)
Talvez a característica do Ciente seja uma forma de compreender a noção de tempo e o que se faz com ele… espelha uma certa contrariedade, uma atitude dúbia, mas que nos deixa a pensar. Aliás, todas as personagens irão ter características chave que nos deixam alerta: o Carteiro, o VendedorDeConchas ou o Cego, e a dureza da luta diária, mas também a simplicidade. A ideologia e o credo da AvóKunjikise, a corrupção e as manhas dos Fiscais ou do Ministro,… o amor à cidade e a transparência de Odonato… são transparentes, mas cheios de conteúdo!

“(…) porque só os grandes homens choram na companhia solitária de outros homens…” (pág.201)

Outro conteúdo que é trazido para o livro é a cidade, metamorfoseada pela exploração, pela corrupção… pelos mesmos de sempre e agora pelas perfurações em busca de petróleo… Ondjaki, tal como refere em algumas entrevistas, pretende chamar à atenção para a necessidade de se pensar Luanda, como cidade, como ser vivo, volátil e permeável a todas as mudanças trazidas pela globalização e capitalismo. É nessa mutação acelerada que a cidade perde qualidades e esmaga o povo, que luta pela dignidade de um dia melhor, menos sofrido, menos explorado… com menos fome. A fome é também uma grande temática.

Com um estilo e humor característico, o autor vai levantando o véu e denunciando o que lhe preocupa:
“- mas quem manda em tudo isto?
– gente muito superior.
– superior.. como deus?
– não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus.”

A cada parte do livro, o leitor ganho um novo fôlego, naquelas páginas a negro, onde as palavras do autor ganham uma nova aura e anunciam a imaginação essa “faculdade que nos separa dos outros seres” … essa potencialidade que tanto a ciência como a humanidade precisam.
Espelho dessa humanidade, mas também da criatividade do autor, é o prédio, metáfora para o povo e daquilo que os homens são feitos. Ele, o prédio, é o palco de uma Luanda esburacada, fragmentada.

Na lança que Ondjaki solta com este romance está uma imaginação que se embriagou nas estórias de um povo bom vivant que talvez ainda queira a sua Angola de outros tempos.

Ondjaki, vence Prémio José Saramago, veja a notícia em Novembro 2013, aqui.

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