“As Coisas Que te Caem dos Olhos”, de Gabriele Picco – Opinião


Onde começa o nosso desejo por um livro?

No caso de “As Coisas Que te Caem dos Olhos” começou, sem dúvida, pelo título e claro, pela capa. Se o título já era sugestivo o suficiente, a capa completou o desejo de ler esta tão badalada, fábula urbana sobre amor e criatividade.
Gabriele Picco tem, como artista plástico, o seu trabalho reconhecido e exposto em diversos locais de elevado destaque como no MoMa. Como escritor viu igualmente o seu trabalho ser aclamado pela critica, tanto que este romance é um reconhecido como «imperdível».

O autor italiano traz-nos um relato de sobrevivência, onde Ennio, o protagonista, foge da sua realidade para vir combater na realidade dos outros. No seu caminho cruzam-se outros que o ensinam a conhecer-se, tanto a si como aos demais e ao mundo (cruel, por vezes) que o rodeia.
Um ser frágil que se entrelaça com outros, para quem a vida tem apresentado algumas falhas. É entre os problemas de Arwin, os esboços e os sonhos de Kasuko, a (falsa) força de Gianny ou o pó na vida de Josh, que Ennio cresce e descobre mais mistérios sobre as coisas que nos caem dos olhos.

Toda a ideia de base deste enredo é quase tão surreal como a capa. Porém, é nesse surrealismo que assenta a mensagem de beleza, de amor e de esperança que o livro pretende passar.
É com toda a sua criatividade, que Gabriele Picco quer deslumbrar o leitor com um universo inocente, mágico e até meio infantil, mostrando que o impacto que cada coisa tem em nós, depende do valor que a gente lhe dá.

Com alguns traços comuns e algumas “imagens” que se repetem de outras leituras ou filmes, a ideia do conteúdo das lágrimas é divinal, sonhadora… como um segredo feito para ser desvendado.

“Um segredo. Os segredos são feitos para ser desvendados, soltos, como neve. Os segredos são peles que se formam nos lábios gretados das pessoas, retirados com pequenas mordidelas, com cuidado para não sangrar.” (pp.135)

Se encontrar um diário, partir em busca do seu autor e nos apaixonarmos por ele, já não é novidade. Andar por Nova Iorque a trocar nomes às ruas, já pode ser um rasgo criativo, nem que seja o de um vandalismo, inocente e imaginativo. Ou ainda, escrever cartas sem destinatário e pensar que se procura Deus, é uma perspectiva curiosa para questionarmos o papel de Deus na nossa vida.

“O matrimónio é como um loft: com as janelas a olhar o mundo e que nos deixam boquiabertos, sem fôlego. E depois o pó invisível dos dias, dos anos, irreprimível, que se deposita preguiçosamente nos móveis, nos pavimentos, e mastiga tudo, até as divisões do amor.” (pp.147)

Já o autor, mastiga muito bem doses de realismo e dureza do dia a dia, com pitadas de surrealismo, que quase dão um tom mágico à narrativa, levando-nos quase a achar tudo impossível, e se é tudo, o sofrimento, a morte, o suicídio também o são. E por vezes, soltamos um suspiro, quase de escárnio por certo traço que nos parece parvoíce, mas noutras endireitamo-nos na cadeira e vemos que a brincar também se dizem verdades.

Todo o enredo de “As Coisas Que te Caem dos Olhos” levanta questões e dúvidas, que se de início nos fazem pensar sobre a coerência da história, no fim, já nos faz pensar na incoerência de tanto sofrimento e da infelicidade que adicionamos às nossas vidas por complicarmos demasiado…

“(…)Estão juntos, agora. Uma luz rosácea dilui os contornos das coisas, enquanto os seus pés cheios de areia atravessam o longo perfil desenhado e, passo a passo (…) Ennio pode realmente considerar que entrou dentro dela, atravessando-a em todos os pontos (…) (pp.164)

A vida é assim: uma montanha de segredos, um punhado de pedras no coração, minada de colmeias de olhares e dedos no ar. É o mundo na boca, entre cartas a deus e a bomba atómica do amor. É um relógio sem ponteiros… um rio com cem anos de comprimento… um livro de lágrimas.

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