“Os Memoráveis” de Lídia Jorge – Opinião

Nesta que é a minha estreia com a obra de Lídia Jorge, só posso dizer que apreciei bastante e que em breve voltarei aos seus livros.

“Os Memoráveis” é um hino à glória da Revolução de Abril e aos seus intervenientes. É uma balada de esperança, um embalo pelo sonho da liberdade, um murmúrio que revela, num tom suave mais pertinente, que o sonho não morreu.

«Acha, então, que a mente humana está definitivamente formatada para se esquecer do bem? Para se esquecer dos momentos em que o anjo da alegria passa pelo mundo? Os momentos em que existe uma pausa na incessante selvajaria humana?» (pp.24)

Lídia Jorge homenageia os memoráveis. Para que não se percam no esquecimento, os inúmeros homens e mulheres que mudaram o curso da história e abriram uma nova página para a liberdade. Uma liberdade que a autora confessa interpretar como jovem e inexperiente. Numa das entrevistas que ouvi, a mesma afirma que em Portugal ainda falta assumir essa liberdade e a democracia e fazê-las crescer.
Relembra ainda que com a Revolução de Abril tornámo-nos “Gente com o direito à palavra” e é preciso dar vivacidade a esse direito. Fazer reactivar a chama e o impulso necessários à mudança!

É pegando nessa mudança e aceitando o desafio, que a personagem central regressa a Portugal. Pouco convencida com a sua missão, de fazer como que um inventário de nomes sonantes da Revolução, Ana Maria Machado vem à procura de esperança e redenção da sua própria história. Mas é também a medo que reata uma relação paternal falhada…
É também pegando no medo de um povo “(…) ninguém se dispôs a falar do medo.” (pp.179) que se interpreta e conhece a história de um regime, de uma revolução, de um país. É nas memórias de episódios que se querem esquecer, que se esconde o medo.

A meu ver, Os Memoráveis, é também uma enaltecimento ao povo português. Talvez uma tentativa de homenagear, mas também fomentar a vontade de ser voltar a ser grande e mais digno de permanecer nos escaparates da História como um povo que tomou as rédeas do seu futuro.
“Falta-nos o impulso vital de acreditar no futuro”, esse impulso está mudo, inactivo… envelhecido… reconhece a autora numa outra entrevista.

Nesta democracia jovem – como a autora considera – e na falta de comunicação e até medo, vive-se numa sociedade cada vez mais virada para dentro e exemplo disso é a forma – silenciosa – como encaramos a imigração dos que já começam a partir. É essa falta de sentimentos ou o calar das emoções que tem vindo a tirar as energias aos portugueses, calando assim novas revoltas!? É uma questão que fica no ar, quando se ouve as “explicações” e as motivações da autora para ter criado esta ficção que tanto revela da realidade da nossa História.

Nesta reunião, reúnem-se”… as últimas pétalas da metralha…” onde a autora pretende uma relação nítida entre o passado e o presente, apresentando os memoráveis, como protagonistas de uma “obra” que não é só o passado, mas também uma ponte que se precisa para o futuro.
Se o livro pretende elevar uma geração que caminha a passos largos para o esquecimento, sejam cinco ou cinco mil, interessa não esquecer o que se passou, nem minimizar os eventos que foram decisivos.

Ao voltar a Portugal para cumprir apenas funções e tendo uma fotografia como ponto de partida, a personagem central, Ana Maria Machado, facilmente passa para segundo plano, interessa aqui é o olhar de gerações que se interpelam e até se atropelam… que se questionam sobre motivações e desejos…, opiniões e especulações… o âmago da questão utópica que envolveu a revolução de Abril.
Mas terá sido tão utópica assim? Terá um cunho de milagre? Será apenas um fábula romanceada e sonhadora!?
E que moral retirar dessa fábula, desse conto que roça o tom efabulatório e tem contornes de conto de fadas… e todos viveram felizes para sempre?
E a capacidade perdoar? Ou camuflar os conflitos e as animosidades entre as fações do povo e o estado!?

Seremos alguma vez capazes de decifrar o que realmente se passou?

Se este é um livro para eternizar um povo e uma história, é também um livro em tom ensaístico que levanta inúmeras questões e talvez até, lance desafios.

“Agora, ele apenas queria testemunhar que, ao menos uma vez na vida, tinha feito
parte da aragem benéfica da história.” (pp.31)
Deixo-vos a inspiração musical… “(…) que se trata de um som que levanta do chão os vivos e os mortos, e juntos unem o Oriente e o Ocidente numa terra única.
“Quando mais tarde acordei, ouvindo dizer que vinha a subir, pela Rua do Carmo acima, uma coluna de tanques carregados de soldados, com a população da cidade correndo atrás aos gritos de incitação, compreendem o que eu senti. A ressurreição veio ter comigo e vestiu a minha roupa, calçou os meus sapatos.” (pp.336)
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