A Delicadeza, de David Foenkinos – Opinião

Cheguei até David Foenkinos com este A Delicadeza, mas por conveniência acabei por ler primeiro As Recordações e gostei desde logo da escrita do autor e até da sua forma, talvez meio alucinada, mas muito acertada de relatar os sentimentos e as emoções. Por isso, assim que apanhei este em promoção na Feira do Livro deste ano, nem hesitei.

Se em As Recordações, Foenkinos nos chama para a família, em A Delicadeza chama-nos para o casal, o amor. É claro, é família também, mas aqui num conceito micro, duas pessoas que se amam, que levam uma vida juntas e que têm as suas rotinas. E se é rotina, roça o banal e se banalizamos menosprezamos os momentos mais pequenos. Acho que é logo por aí que Foenkinos nos prende a atenção e nos deita abaixo da frieza imposta pelo dia a dia acelerado e ocupado.

Tem de existir espaço para o amor, para as pequenas coisas… eu arriscaria a dizer, para delicadezas. Mas também tem de existir o perdão, esperança e abertura para novas delicadezas, mesmo que inusitadas. Markus não é François, mas Nathalie também já não é só a Nathalie. É uma mulher fragilizada e que, mesmo sem saber ou aceitar, desejar avançar e continuar com a sua vida amorosa.

O relato de Foenkinos é despretencioso, inteligente, ora melancólico ou meio alucinado. Há em torno de Markus toda uma série de piadas sobre suecos. E há em Nathalie toda a delicadeza de Audrey Tautou, é como se o livro fosse escrito já a pensar nela – será que foi!? É que Foenkinos também co-realizou a adaptação do seu romance.

Apesar de “As Recordações” ser um livro posterior a este, vejo em “A Delicadeza” o peso das memórias e a pulsão das mesmas para a solidão. Este é um livro que explora o amor, mas também a isolamento, potenciando a dedicação a algo mecânico como o trabalho, já que deixámos, perdemos ou enterrámos o amor e a vivacidade com quem morreu.

É nessa solidão que Nathalie retorna a casa.

“Ela abraçou-os e agradeceu-lhes. Sentiu-se aliviada por ficar sozinha. Outros não teriam suportado a solidão naquele momento. Nathalie sonhara com ela.”
(…) Ninguém compreende aqueles que dizem que querem estar sós. A vontade de solidão é, forçosamente, uma pulsão mórbida.” (pág.39)

Não sei se é mórbida ou não, mas a solidão pode ser catalisadora e compensatória se quem desejar estar só se apazigúe com as suas memórias. É isso que vi neste livro e no anterior. O desejo do autor em centrar a história de uma vida, nas memórias e com elas aprender a seguir em frente.

“(…) reconsiderou aquela expressão: «desfazer-se das recordações». Como é que nos separamos de uma recordação?”

A Delicadeza é um livro, mas é também um filme, ou melhor, são vários livros, vários autores, filmes e músicas. Tal como no anterior, David Foenkinos recheia o romance com inúmeras referências e o melhor, é que vêm sempre na altura certa.

Há um livro que Nathalie deixou aberto, deixou-o ali à sua espera…
“Será possível retomar a leitura de um livro interrompido pela morte de um marido?”
É uma pergunta forte, mas a leitura é repleta de sensibilidade, humor, ternura e de uma doçura cativante, como que uma inocência que queremos recuperar.

Depois de acometido pelo beijo enfeitiçado de Nathalie, Markus faz um filme de culto na sua cabeça e essa cena está muito bem conseguida no filme, mas a passagem da alcatifa … “A alcatifa é a morte da sensualidade. Mas quem teria se teria lembrado de inventar a alcatifa?” … essa ficou menosprezada. É uma pena.
Voltando ainda ao beijo e para fechar em beleza:
“Excerto de O Beijo, conto de Guy de Maupassant
Saberás tu de onde nos vem a nossa verdadeira força? Do beijo, apenas do beijo! (…) O beijo, contudo, não é mais do que um prefácio.”
BOAS LEITURAS e já agora, bom filme!
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