Pigtopia de Kitty Fitzgerald – Opinião

Pigtopia, pigologia, suinotopia.

A arte de compreender os porcos.

Num universo pigotópico, Jack, o anão (que é a primeira visualização que fazemos dele!), vive atarefado nas suas actividades porcinas, pleno de encantamento com a única família que tem, os porcos.

Num universo paralelo, naquele que será o da realidade do dia a dia, Holly, apega-se a Jack, como bóia de salvação do mundo que conhece e que lhe foge das mãos.

“(…) levo uma tristeza embrulhada na minha barriga, pesada como uma pedra (…)”

Numa amizade peculiar, dividida entre adorações suínas e problemas de parte a parte, os dois amigos orientam-se por aquilo que conhecem e dominam, Jack pela pedra-porco-relíquia e Holly pelas cartas de tarot. Ambos seguem tais orientações, meio holísticas, para ir resolvendo os problemas e deixam-se levar pela relação que vão mantendo, um com o outro, mas também com Freya e Peach (porcos!) Há no entanto uma relação, ou várias, que atrapalham a inocência e a magia desta relação.

“As coisas estão todas ligadas, a lua, a água, os porcos, a esperança, a Holly, eu, tudo num círculo redondo.”

Perdido entre o seu Reino Porcino e a “sua” Holly, Jack vive uma história que tem tanto de enternecedora como de aterradora. Holly também é apanhada nesta espiral. Por um lado é ela quem a provoca, mas ao mesmo tempo, permite a Jack a amizade que ele nunca havia tido.

“Contacto visual voluntário é uma ousadia quando vem de um animal não apreciado como eu (…) Já a a minha sombra a pulsar no chão é suficiente para meter medo à maioria das pessoas.”

Buscam ambos um futuro mais risonho e menos sofrido, onde o calor de uma amizade verdadeira poderia dar-lhes o caminho para a verdadeira felicidade.

Até lá, o perigo e o medo espreitam nos cantos e tem o nome de Samantha, uma menina cujo as suas atitudes reflectem a sua dor, perspicazmente sentida pelo sexto sentido de Jack. Mas existem mais medos, aqueles que se escondem nos cantos da grande cabeça de porco de Jack Plum, fruto da insegurança e rejeição de que tem sido vítima. Na cabeça de Holly surgem outros medos, outros receios, o da juventude e da sexualidade que despertam, bem como o medo do abandono.

“Isto quer dizer que a Samantha é como uma roda de carroça, que perdeu uma parte da fixação, mas ninguém notou e em breve a carroça vai destruir-se completamente e provocar uma devastação.”

Narrada a duas vozes, esta história mostra dois mundos com caminhos muito diferentes mas que se cruzam, que se completam. A escrita de Kitty Titzgerald é tão depressa doce como ácida. Existem momentos de puro deleite, vivências de uma amizade pura e desinteressada e momentos de tensão e horror… mas tudo descrito de forma cuidada e com recurso a uma linguagem porcina. As analogias, especialmente as de Jack são maravilhosas e enaltecem os porcos como animais inteligentes e com quem podemos aprender muito.

“E tenho a crença que possuir uma cauda para mostrar as emoções interiores é muito mais verdadeiro do que o sorriso das pessoas-porco.”

Basicamente é um livro sobre a amizade, mas dizer só isso é redutor. É uma narrativa, no mínimo peculiar, de amor aos porcos, por alguém rejeitado e por alguém meio negligenciado…  mete o dedo em temas como a monoparentalidade, a deficiência e a tolerância e até a dificuldade da inclusão escolar… dizer mais tiraria o efeito surpresa e até algum esgar perante certos momentos.

Definitivamente uma leitura diferente, intensa e que nos arrebata por completo.

 

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