“Firmin” de Sam Savage – Opinião

Firmin” é o verdadeiro rato de biblioteca!

Nascido na Pembroke Books, uma livraria da Boston dos anos 60, Firmin começou cedo nos clássico, ou não tivesse ele nascido em cima de Joyce! Aprendeu a ler devorando, literalmente, páginas e páginas de inúmeros livros. Insaciável, as suas leituras e interesses conferem-lhe um humor e um perfil quase “humano” preso num corpo de ratazana… essa foi a sua tragédia!
“Tornei-me um cidadão bem informado e, quando o jornal mencionava o «o público em geral», sentia uma pontinha de orgulho.” (pp.82)
Era assim mesmo que se sentia Firmin. Depois de muitas e muitas páginas devoradas, mesmo que de clássicos amarelados e já quase caídos em desuso, Firmin considerava um ser interessante (à parte do aspecto físico) e cheio de interesses. Era um ser culto, conhecedor de inúmeros autores e seus respectivos períodos literários, era um conhecer de cinema clássico e profundo apaixonado por Fred Astaire e a sua bela Ginger Rogers. Firmin era um frequentador assíduo 😉 da livraria e do cine teatro da Scollay Square da velha Boston.

Firmin não seria propriamente um BIBLIOBÚLICO, pois ele não esqueceu o mundo à sua volta, aliás passou a interpretá-lo melhor. Este rato de biblioteca, ou neste caso de livraria é mais um caso de BIBLIOBULIMIA. Ele era incapaz de parar. A ingestão literária era tão elevada que Firmin não se esqueceu do mundo, esqueceu-se sim do seu lugar típico no mundo. E é isso que é fantástico neste enredo. A autenticidade da paixão pelos livros. A forma enternecedora como é relata essa paixão. O amor inocente e platónico que desenvolve pelas personagens, pelos escritores, pelo livreiro… É a amizade, mas é também a solidão, é a imaginação fértil que o anima, mas a dura realidade que o abate, que o põe em risco.
Ao fim ao cabo, a literatura é capaz de ser um assunto violente e de colocar o leitor em risco de vida… em especial se for uma ratazana 😉

“Quando se tem fome, come-se o que há. O simples acto de mastigar e engolir seja o que for pode não alimentar o corpo, mas alimenta os sonhos. E os sonhos com comida são como os outros sonhos – pode-se viver deles até morrer.” (pp.27)

É neste sonho que se alimenta e se firma na BIBLIÓFILO, dos seus observatórios suspensos, o Balão e a Varanda, Firmin apaixona-se por Norman e arrelia-se com algumas manias de outros leitores, como é o caso das dedicatórias, fazendo achar que os livros deveriam ser enterrados com os donos… A educação desta ratazana grotesca (descrição pelo próprio) evoluiu para além da Pembroke Books, estendendo-se às incursões no Rialto Theater, apaixonando-se por filmes antigos entre uma dentada num resto de uma pipoca ou de um rebuçado.

Porém, todo este equilíbrio educacional será posto em causa. “O futuro estava agora envolto numa neblina venenosa”.

Sam Savage criou uma fábula muito rica e desenhada para brindar ao leitor apaixonado por livros. Um leitor que se reconheça em certas taras e manias de Firmin, irá apaixonar-se ainda mais por este livro.

Se por acaso e acredito que muito dificilmente não se apaixone por Firmin, apaixone-se e aprecie Sam Savage, em especial com o livro “O Grito da Preguiça”, comentado aqui ou o mais recente “As Recordações de Edna”, também lido e comentado aqui.

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2 pensamentos sobre ““Firmin” de Sam Savage – Opinião

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