A Avó Dezanove e o segredo do soviético” de Ondjaki

avó Dezanove

Há livros assim. De uma candura encantadora, feitos de palavras leves e mornas que nos embalam e nos deixam a sorrir. Não creio ser capaz de exprimir precisamente o quão deliciosa foi mais esta incursão literária pela obra de Ondjaki. O melhor é mesmo ler o livro. Até a escolha de excertos se revelou uma tarefa hercúlea; como escolher umas poucas frases ou parágrafos quando nos apetece transcrever página após página da maravilhosa escrita deste autor? A inocência e a coragem ingénua da infância, a capacidade de resistir, de se adaptar a circunstâncias difíceis, de aprender a conviver com a guerra e com a escassez material sem perder uma certa alegria de viver, sem desistir. As avós, os netos, as brincadeiras na rua e na praia, os laços de amor e de amizade sincera, a solidariedade, povoam este romance absolutamente delicioso que nos mostra tantas facetas luminosas do ser humano sem deixar de denunciar a violência atroz da guerra e da injustiça, eternas sombras deste mundo.

Não é possível dizer muito mais sem correr o risco de revelar a história deste “A Avó Dezanove e o segredo do soviético”. Digo apenas que lê-lo foi um puro deleite e que vale bem a pena imergir nas palavras encantatórias de Ondjaki.

Excertos:

“A explosão até acordou os pássaros adormecidos nas árvores e os peixes vagarosos do mar – aconteceram cores de um carnaval nunca visto, amarelo misturado com veremelho a fingir que é laranja num verde azulado, brilhos a imitar a força das estrelas deitadas no céu e barulho tipo guerra dos aviões Mig. Era afinal uma explosão bonita de ser demorada nos ruídos das cores lindas que os nossos olhos olharam para nunca mais esquecer.

Nós, as crianças, ficámos a olhar o céu se encher de umas maravilhas acesas como se todos os arco-íris do mundo tivessem vindo a correr fazer um brinde no tecto da nossa cidade escura de Luanda.”

“O vento não deve gostar de andar sozinho, se repararem bem, porque sempre quer levantar poeira, dobrar as árvores, soprar as folhas e arrastar as nuvens para longe. O vento deve ter uma casa no tão-longe e está sempre a tentar levar as nuvens para a casa dele, mas isso é uma coisa que eu penso sozinho sem contar a ninguém, porque outras crianças podem me chamar de chanfru e os mais-velhos podem querer me dar remédios para ver se bom da cabeça.”

“Acho que as lembranças são cócegas invisíveis que ficam dentro das pessoas. Eu quando me lembro dessas coisas começo a rir sozinho até o 3,14 me perguntar se eu sou maluco de rir tantas vezes sozinho.”

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