“Tenho o direito de me destruir”, de Kim Young-ha – Opinião

… a esquizofrenia de querer ser um Deus!

É assim que interpreto este romance de estreia de Kim Young-ha. Se “só há duas maneiras de ser um deus: através da criação ou do assassínio.” Kim, K. ou C. e o narrador/autor conseguem-no através de uma esquizofrenia ou de uma bipolaridade artística, conseguida através das páginas insólitas deste romance que mistura diversas formas de arte, desde a pintura, à música, às performances mais vanguardistas e a cenas de sexo, no mínimo curiosas.

Desde o olhar que se perde no quadro A Morte de Marat de Jacques-Louis David até à sonoridade única de Everybody knows de Leonard Cohen, o relato é envolto em enigmas e em episódios insólitos que parecem despegados uns dos outros, mas ainda assim não é um livro que pratique tanto o desapego como esperava que aí incidisse. Procurava um livro cru e sem qualquer tipo de remorso ao descrever formas de “angariar” clientes para suicídios por encomenda, de preferência donos de uma performance macabra e digna de registo por palavras e imagens. Mas não é nada disso que aqui se encontra.

O narrador, no seu caminho sereno e controlado, estuda meticulosamente as estratégias para encontrar as potenciais vítimas de suicídio, donas de vidas inutilmente prolongadas…

“Quem não conhece a beleza da simplificação, da supressão do que é necessário, morre sem chegar a conhecer o verdadeiro sentido da vida.”

As descrições desses seus actos de pesquisa são tão breves que não chegam a ter impacto, se bem que as referências a artistas, autores e seus trabalhos é um excelente ponto de partida para encenar cenários artísticos e para divagarmos para outros caminhos que não os do livro. O enredo vai antes na direcção das vidas meio vagas, vazias e aceleradas e de felicidade intangível de Kim ou K., C., Se-yeon ou Mimi.

“Será pecado 

Precipitarmo-nos para a casa secreta da morte 

Antes que a morte ouse vir buscar-nos?

Nas palavras de Shakespeare julgo termos a chave para o incidente que mais à frente revela a problemática entre irmãos gémeos. A competição entre eles é enorme e sã vidas que seguem caminhos opostos, se bem que um abdica sempre em detrimento do outro. O que me deixou a pensar: será que existem mesmo dois? Ou será um traço de bipolaridade no personagem que perante a fraqueza age, despegado de si, e tem actos que o aproximam de deus!?

Será que K. e C. são um só e que as mulheres que vão surgindo, tal qual Judites de Klimt são sempre a busca por um modelo, uma aspiração, uma ilusão!? A procura de uma perfeição artística que completa o clímax da obra em que o suicídio se tornaria!?

Julgo que há neste romance contornos de um enorme transtorno do personagem que questiona constantemente o sentido da vida, balançando entre tradição da cultura oriental, subvertida às novidades e influências ocidentais, gerando uma crise de valores que se espalha a todos os sentidos da vida. É nessa busca por sentido que o narrador expõe o suicídio como solução. Encenando-o como forma de abrilhantar a vida, encenando uma realidade.

“Às vezes, é mais fácil compreender a ficção do que os acontecimentos reais. A realidade é muitas vezes patética. Aprendi muito cedo que , para marcar uma posição, o mais fácil é inventar uma história. (…) o mundo está cheio de ficção.”

No entanto, não é nenhuma ficção a taxa de suicídio ou a realidade do direito de pôr fim à vida. Talvez sejam essas ideias que marcam posição no final desta leitura. Ou então as inúmeras referências que só me fizeram lembrar de mais. Aliás, desde o início que quis rever a exposição de Vik Muniz, na sua interpretação muito própria, de Marat.

A Morte de Marat, por Jacques-Louis David e por VikMuniz

A ligação à pintura, ao acto de criação de algo como forma de quebrar o medo, talvez o medo do vazio, da ausência de ideias com que se defrontar… a tal parede branca (pp.104)… aqui em conjugação com o aproveitamento do lixo, num confronto com o desperdício da sociedade ocidentalizada… dá que pensar. Especialmente quando C. e Mimi se debatem com a ideia: “Mas a arte não é sempre um filtro da realidade?”

E qual será a realidade de C.? A mesma de Sardanapalo!? Um espectador e um executor.

Delacroix, A Morte de Sardanapalo – Louvre, Paris

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